Por Eduardo Martins
Eduardo Martins - Os jornais brasileiros o satisfazem, dr. Ruy? Por exemplo, o senhor acha que o Estado está próximo da sua concepção ideal de jornal? Pelo noticiário, pelo texto, o senhor acha o jornal bem escrito e compreensível? Essa é uma coisa que me preocupa muito. Às vezes, leio uma notícia que não consigo entender. Isso passa pelo senhor?
Ruy Mesquita - Claro. Em primeiro lugar, em época nenhuma e em lugar nenhum do mundo, o jornal é uma obra perfeita. Aliás, é o protótipo da obra imperfeita, porque é a única obra que se completa em 24 horas. Ela nasce e morre em um dia, nasce do zero e morre num dia. De modo que eu cito, sempre que sou entrevistado, a frase que ficou na história do jornal, do Giannino Carta, que foi o meu professor de jornalismo: comecei a trabalhar no jornal sob a direção dele, na seção Internacional do Estado, e durante muitos anos trabalhamos juntos. Naquele tempo, o jornal fechava, quer dizer, ia para a rotativa, a redação fechava à 1 e meia, 2 horas da manhã. Quando acabava de fechar e eu estava lá ao lado dele, ele tirava os óculos, olhava para mim e dizia: "Ruy, mais uma batalha perdida" (risos). Ele sabia, como eu sabia, que o dia seguinte íamos abrir o jornal e íamos espumar de raiva com as besteiras que iam sair, com os erros que iam sair, com as coisas que podiam ter saído muito melhor. Isso é inevitável.
“Do ponto de vista político-ideológico, digamos assim, nós fomos educados no estudo da democracia ateniense, quer dizer, o berço da democracia (...) O choque ideológico do mundo se resume nisso: é a guerra entre Atenas e Esparta, a guerra entre os que acreditam que o Estado deve ter uma ação o mais limitada possível, e os que acreditam o contrário”Agora, é claro que a coisa se agravou, em primeiro lugar por um fenômeno que não entendo: ao contrário do que se possa imaginar, esses novos sistemas eletrônicos de composição e tudo isso, em vez de aumentarem o espaço de tempo para a composição do jornal, diminuíram. Hoje, a primeira edição está fechada às 8 da noite e a segunda, às 11. Enfim, no meu tempo, como eu dizia, era à 1 e meia, 2 horas da manhã que fechava a última seção do Estado, a seção Internacional. Dava perfeitamente tempo para imprimir a edição e distribuir. Hoje não dá mais, não sei por quê. Então é claro que esse tipo de limitação é quase que insuperável, não permite a perfeição e nem a proximidade da perfeição.
Outro problema que tivemos foi o que surgiu depois do aparecimento das escolas de jornalismo, que são, como aliás a maioria das escolas brasileiras, muito deficientes. Antigamente era jornalista quem fazia bico ou tinha vocação para ser ou sabia escrever bem. É claro que escrever bem é fundamental, pois o instrumento de trabalho do jornal é a língua. Meu pai sempre dizia que quem não domina a língua não pensa bem, porque o instrumento do pensamento é a linguagem. Então, o Eduardo Martins, o autor dos nossos manuais de Redação, deve imaginar o meu estado de espírito quando encontro coisas terríveis no nosso próprio jornal, etc. e tal.
Outra limitação é a limitação econômica. Por exemplo, neste momento, a publicidade dos jornais brasileiros caiu muito, o preço do papel subiu uma barbaridade e 90% ou mais das nossas despesas são com pessoal e papel, que são os insumos básicos do produto jornal, que depende primeiro de espaço. Nós sofremos uma concorrência que quase não é concorrência, é um negócio predador, o da mídia chamada eletrônica, da televisão, que tem condições de pagar muito melhor do que um jornal, cuja fonte de renda exclusiva é a publicidade. A venda avulsa dá prejuízo, as assinaturas dão mais prejuízo ainda, de modo que, infelizmente, volta e meia estamos recebendo comandos da administração de que é preciso cortar despesas, é preciso cortar aquilo e tal.
Eu vivo dizendo, sempre disse, que os jornais podem competir, dependendo da sua capacidade de desperdício, que essencialmente a possibilidade de desperdiçar é que diferencia um jornal do outro. A informação basicamente é a mesma, as fontes de informação são basicamente as mesmas, então, em primeiro lugar, você tem que ter recursos para ter um time que elabore a informação, que é a mesma para todos. E, em segundo lugar, eu sempre cito o caso único na imprensa do mundo, que é o The New York Times, que é de longe o jornal mais rico e mais poderoso do mundo, que tem essa capacidade de desperdício que nenhum outro tem. Então você tem meia dúzia de correspondentes fora do seu país e eles têm um ou dois ou três correspondentes em cada lugar que eles acham importante, praticamente no mundo inteiro. O correspondente do The New York Times que chega aqui ao Brasil vai ser sócio do clube mais caro, terá o padrão de vida mais alto do País para poder ter acesso às esferas dirigentes do País, etc. e tal. Claro que a força de competição desse jornal é imbatível e é claro que os jornais brasileiros têm limitações desse tipo.
“Eu fui educado primeira na leitura de Tucídides, depois de Fustel de Coulanges, que tem um livro clássico até hoje citado, chamado La Cité Antique (A Cidade Antiga), que é a descrição das instituições atenienses do tempo de Péricles, e depois o Alexis de Tocqueville. É esse o ideário do jornal O Estado de S. Paulo até hoje. É evidente que nós fomos adaptando as nossas idéias, mantendo-as no que têm de fundamental, à evolução material, social e cultural do mundo moderno”Nenhum jornal brasileiro, com exceção possivelmente do Globo, que é ligado a uma televisão muito forte, uma empresa enorme, tem largueza de recursos. Por mais sucesso que ele tenha e por mais preocupação que tenha com publicidade, tem limitações grandes. Infelizmente, nós não podemos fazer o jornal que eu sonhava, às vezes tenho que fazer muito diferente do que sonhava, porque quem comanda não é a redação, quem comanda é a administração, que sabe se você tem condições econômicas ou não de fazer o jornal que você quer.
Eduardo Martins - O senhor acha que, diante disso, a diversificação é de fato um caminho para os jornais? O senhor citou O Globo. Então no caso do Globo, há 30 anos eles não tinham uma televisão forte e hoje a televisão é, sem dúvida, o setor mais forte da Rede Globo. O Estado pensa nessa diversificação?
Ruy Mesquita - Pensa e já está iniciando. Nós apostávamos muito e continuamos apostando - embora tenha havido este recuo das expectativas, que no começo eram exuberantes, como dizia o nosso amigo (Alan) Greenspan - na Internet e em todo o campo novo que ela abre. Mas de repente se descobriu que a Internet, para dar dinheiro, vai demorar muito tempo ainda. Nós estamos muito bem situados nela, somos pioneiros na questão principalmente dessa informação online. A Broadcast aqui foi a pioneira e nós estamos avançando nos nossos sites em muito boa situação. Mas como você, que lê jornal, sabe, quem se meteu nisso com grande voluptuosidade se arrebentou. Aquilo que se pensava que era um maná hoje em dia é uma tragédia. É o que se vê aí na Nasdaq. O resumo dessa história é este: toda a mídia eletrônica vai levar não sei quanto tempo ainda para dar realmente o dinheiro que se pensava que ia dar desde o primeiro dia. Quanto à televisão, também temos projetos muito mais próximos, não de ter uma TV nossa, mas de entrar lá de alguma maneira. É para logo. Não posso divulgar o que está acontecendo, mas é coisa de curto prazo.
Evidentemente que não tem outra saída. O jornal sozinho não resiste a um mundo onde a competição é tão impiedosa como é a competição do mundo econômico hoje em dia. Eu não digo que esteja triste porque cumpri meu papel, estou chegando ao fim da minha vida perfeitamente satisfeito com a contribuição que dei para a empresa, mas tenho certeza de que sou a última geração que vai ter esse tipo de empresa. Já está aí a nova geração que, ao contrário de mim, tem empresários (eu não sou empresário, nunca fui, não entendo nada do problema empresarial), que já estão cuidando de problemas desse tipo, de associação com outros capitais, de abertura de capital. Assim que a lei que está tramitando no Congresso permitir que os jornais abram seu capital ou pelo menos alguma parcela desse capital, nós estamos certos de que o sistema que vigorou até agora, de empresa exclusivamente familiar, acabou, e que o que vem por aí é coisa completamente diferente e que nós temos que diversificar as nossas atividades se quisermos sobreviver.
Eduardo Martins - O De Palavra em Palavra agradece imensamente esta entrevista concedida pelo dr. Ruy Mesquita. Eu acho que os nossos ouvintes ficaram sabendo bastante sobre o jornal O Estado de S. Paulo e esclarecemos também algumas dúvidas a respeito de como se forma a opinião do jornal. É uma coisa que se transmite de geração a geração e acho que essa é uma prova de vitalidade da empresa. Quanto ao receio de o jornal desaparecer, no ano passado participei de uma reunião da Associação Mundial dos Jornais, no Rio, e grande parte das pessoas que fizeram exposições nessa ocasião acha que o jornal vai continuar sobrevivendo ao lado da Internet e que a Internet no fim vai ser um polarizador dos jornais. Acho que nós dois fazemos votos de que isso seja verdade, não é, dr. Ruy?
Ruy Mesquita - Não tenho dúvida de que pode diminuir o número de jornais, mas, que o jornal vai continuar, não tem dúvida nenhuma. Mesmo porque ainda ontem eu estava vendo, no nosso jornal, uma entrevista do Francisco Mesquita Neto, até numa matéria paga da página econômica, falando sobre isso. Ele diz que, se você se colocar diante de uma tela da Internet e pegar um jornal e ler, vê qual é a diferença. Ele dizia: "Eu, quando estou na Internet, até prefiro imprimir e ler a ficar naquela telinha ali, que até deve fazer mal para a coluna". (risos)