Por Eduardo Martins
Como um jornal consegue atravessar dois séculos mantendo os mesmos ideais? Como pode um veículo, após quatro gerações, manter-se fiel ao primeiro editorial – na defesa das liberdades individuais a qualquer custo? Como é possível transpor obstáculos no caminho da liberdade de expressão, mesmo em tempos negros de regimes totalitários?
O site Master em Jornalismo publica entrevista na qual o jornalista Ruy Mesquita, diretor-reponsável de O Estado de S. Paulo, responde estas questões. Sua vida e a do jornal que dirige são exemplos do desafio da liberdade: ele viu o jornal da sua família ser suprimido das bancas, acompanhou a figura sinistra de censores eliminando reportagens e testemunhou o exílio forçado de sua família, em decorrência direta da luta por um jornalismo sem censura. De maneira aberta e franca, o diretor do Estadão mostra também o segredo para manter a coerência constante dos editoriais da página 3. Compara seu time de editorialistas a um ministério – com jornalistas escolhidos a dedo para cada “pasta” - e revela a origem filosófica da linha editorial defendida pelo Estado desde que, na primeira página, ostentava a marca “A Província de São Paulo”.
A entrevista foi feita pelo jornalista Eduardo Martins e veiculada pela Rádio Eldorado, de São Paulo.
Eduardo Martins - O Estado de S.Paulo é um jornal que nasceu para defender a República e o Abolicionismo e que até hoje se empenha nessas causas, em todas as causas, às vezes causas inglórias, que podem trazer determinados problemas, muitas vezes até do ponto de vista econômico, para uma empresa grande como o Estado. Como se explica essa coerência, dr. Ruy?
“O Estado de S. Paulo foi o inimigo principal do ditador Getúlio Vargas. Por isso eu, com sete anos de idade, em 1932, pela primeira vez, vi meu pai sendo preso e exilado”Ruy Mesquita - Eu acho que se explica, em primeiro lugar, pelo fato de o jornal ter pertencido sempre à mesma família. Cada um de nós, depois do meu avô, meu pai, meu tio, praticamente trazia o jornalismo em seu código genético. Foram educados assim por meu avô para pensar, em primeiro lugar, nos problemas do Brasil. Principalmente no caso da segunda geração, o meu pai - educado na Europa, tendo feito o curso primário em Portugal e o curso secundário em Genebra, na Suíça - aprendeu a amar o país dele lá fora, podendo estabelecer, quando chegou aqui para fazer o curso superior, o contraste terrível entre um país das condições socioeconômicas e culturais do Brasil daquela época e o mundo de onde ele vinha, o "centro da civilização cristã e coreográfica", como dizia o meu amigo Carlos Lacerda. E praticamente dedicou sua vida integralmente à luta pelo aperfeiçoamento das instituições democráticas do País. Nunca na vida ele teve outro tipo de atividade.
Então nós - eu, meus irmãos e meus primos, filhos do Francisco - nascemos nesse ambiente. Vivemos sempre juntos, os nossos pais eram casados com irmãs; então nós éramos primos dos dois lados, éramos praticamente irmãos e tivemos o mesmo tipo de educação, respirávamos em casa já o ambiente que íamos conhecer depois, no jornal. Porque, nas nossas casas, os nossos pais só conversavam conosco sobre o Brasil e o mundo em que o Brasil se inseria naquela época.