Por Eugênio Araújo
(Publicado em 08 de agosto de 2003)
Por Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho e José Roberto Marinho
Neste momento de extrema dor, a manifestação de respeito, carinho e admiração do povo brasileiro pela figura de nosso pai nos comoveu, nos emocionou e nos consolou. A imagem de dois estádios de futebol, logo após o anúncio de sua morte, com jogadores, árbitros, dirigentes e, fundamentalmente, o povo prestando um minuto de silêncio é uma cena que guardaremos para sempre em nossa memória. Da mesma forma, foi eloqüente o minuto de silêncio que a Câmara dos Deputados também fez em homenagem a Roberto Marinho, interrompendo uma votação importante, envolvendo pontos de uma reforma tão polêmica como a da Previdência. Também as palavras sobre a sua importância, vinda de jornalistas, artistas, escritores, políticos, empresários, esportistas e gente do povo nos tocaram profundamente. Seremos eternamente gratos por estes gestos.
Mas mais do que nos consolar, todas estas manifestações reforçaram em nós a convicção de que a morte de Roberto Marinho só aumenta a nossa responsabilidade. Porque deixam claro que o povo brasileiro reconhece espontaneamente não somente a relevância de nosso pai para a vida do país, mas principalmente de sua obra. Uma obra que sempre se pautou pela defesa do patrimônio nacional, da cultura brasileira, e dos valores mais caros ao Brasil.
O povo brasileiro se vê em nossos jornais, rádios, televisão, internet e na Fundação Roberto Marinho. Porque somos brasileiros trabalhando para brasileiros. Quando, hoje, avaliamos o legado de nosso pai, temos orgulho de todos os nossos veículos, seja “O Globo”, onde tudo começou, ou o “Extra”e do “Diário de S. Paulo”, iniciativas mais recentes, ou o sistema Globo de Rádio, Editora Globo, a Globosat e a Globo.com. Porque retratam e defendem o nosso país. A TV Globo é uma emissora com seis horas diárias de jornalismo de qualidade no ar e com uma produção artística genuinamente nacional em volume sem igual no Brasil. É nela que o nosso povo se informa e se diverte, o que a torna um fator importante de integração nacional. Tudo isso demonstra que a obra de nosso pai é uma contribuição decisiva para a manutenção da nossa cultura e para defesa dos valores democráticos do nosso povo.
A vida de Roberto Marinho foi sem dúvida vitoriosa, e esta é a imagem que o povo brasileiro guarda dele. Mas ele foi vitorioso também porque soube superar uma a uma as crises, algumas graves, que se puseram em seu caminho. Em nosso longo convívio, aprendemos com ele a buscar sempre a verdade; a fazer tudo com a qualidade que o nosso povo exige, e com a ética de que não podem abrir mão os homens de bem. E com ele aprendemos como manter no rumo as empresas vitoriosas que fazem parte das Organizações Globo. Obstáculos virão, mas, como nosso pai, saberemos superá-los.
Porque também com ele aprendemos a lição mais importante: a obra de Roberto Marinho partiu de um ideal dele, mas só pôde ser concretizada porque foi o resultado de uma aliança entre jornalistas, artistas, escritores, profissionais da cultura e o povo brasileiro. Não somente preservar, mas ampliar essa obra é nosso compromisso. E ela será ampliada, não apenas porque este é o nosso desejo, mas porque pretendemos manter intacta esta aliança que a originou. Esta é a nossa intenção, esta é a nossa determinação, este é o nosso compromisso.
(publicado em 24 de julho de 1993)
Os assassinos dos meninos e adolescentes que dormiam perto da Candelária são monstros. Não há outra palavra, não há forma mais isenta de defini-los. É pouco manifestar horror ante a tragédia. A sociedade precisa também buscar no espelho a imagem das suas responsabilidades – para fazer do remorso a alavanca de uma reação sensata.
Ela deve se perguntar o que fez para levar os criminosos a imaginar que o massacre mereceria o aplauso de algum setor da sociedade; ou que a saraivada de balas contra vultos deitados na calçada seria reação justa contra assaltos e outros crimes do grupo que há tempos mora ali.
É imperioso também procurar uma explicação para o crime sem desculpa. Parte dela certamente está numa comodista sensação de impotência. Nem mesmo a alta visibilidade da comunidade marginal da Candelária forçou autoridades municipais e estaduais a tomarem providências para proteger os cidadãos pacíficos que são obrigados a passar por ali, e proteger os próprios menores da armadilha de suas vidas e da possível reação bestial de algum grupo de extermínio.
De certa maneira, a incompetência de alguns e a cegueira de toda a sociedade deram um recado aos assassinos: resolvam esse problema que para nós é insolúvel; façam como achar melhor, nós somos indiferentes. A ironia trágica de tudo isso está em que o problema não é insolúvel. Segundo levantamentos confiáveis, não chegam a mil o total de menores que não têm para onde ir. Seria uma vergonha para uma cidade como o Rio declarar-se incapaz de recuperar menos de mil desabrigados de qualquer idade.
Mas o problema permanecerá insolúvel enquanto alguns virem os menores de rua, indistintamente, como delinqüentes; e outros os tratarem, indistintamente, como vítimas que têm o peculiar direito de morar sob marquises e às quais a sociedade só deve pedidos de desculpas. As duas atitudes montam o cenário dos massacres.
O fuzilamento da Candelária deixa o Rio tão horrorizado quanto humilhado. É impossível que ambos os sentimentos não sejam fortes o suficiente para determinar uma ação coerente, de apelo universal que, sem excessos do policialismo ou paternalismo, tire esses menores de todas as ruas da cidade, e os conduza para uma vida digna.
(publicado em 30 de setembro de 1992)
O presidente Collor resistiu a todos os apelos para que renunciasse enquanto era possível – e depois, cada vez mais provável – que o Congresso Nacional viesse a interromper o seu mandato, nos termos da lei.
Com a decisão da Câmara, a situação muda radicalmente. Não há mais imponderáveis, e sim fatos: o presidente está apeado do poder por até 180 dias ou definitivamente, a juízo do Senado Federal.
Não são necessários precedentes nem imaginação para conceber o que seriam 180 dias de interinidade da Presidência da República.
Um país de máquina administrativa estruturada, sem graves problemas sociais e com a economia a pleno vapor, teria dificuldades para vencer o semestre sem danos profundos. Para um país como o Brasil de hoje, as perspectivas seriam extremamente sombrias.
É como se o povo brasileiro estivesse pendurado pela ponta dos dedos, tendo um precipício a seus pés. Como pedir-lhes que espere 180 dias pelo socorro?
Em dois anos, um novo governo, se contar com o senso de dever e a visão histórica do Congresso e dos partidos, poderá conduzir o país no caminho da modernização – cumprindo a promessa que levou Collor ao poder.
Mas será quase impossível alcançar tal resultado enquanto o país e seus homens públicos estiverem ocupados com uma disputa pelo poder, ante a perplexidade da sociedade brasileira e a cautela da comunidade internacional.
Por mais que o Brasil deseje se livrar do pesadelo e voltar a trabalhar em paz, a interinidade criara para o Executivo constrangimentos talvez insuperáveis, tanto no planejamento de políticas de longo prazo como na tomada de iniciativas que exijam mobilização da opinião pública. Em seis meses nessa situação, para falar apenas no problema mais imediato e mais dramático, seria particularmente árduo sustentar o frágil controle que as autoridades econômicas hoje mantém sobre a inflação.
Neste momento, Fernando Collor talvez tenha uma última oportunidade de, por um gesto seu, que comece ou termine na sua vontade pessoal, fazer algo pelo seu país, e tomar a decisão pela qual será lembrado.
Chegou para ele a hora do ato politicamente mais inteligente, na defesa mais realista, da demonstração mais insofismável de patriotismo: a renúncia.
É a hora de Fernando Collor dizer ao Brasil, com a eloqüência de um gesto histórico, que não fará dele o alvo de suas frustrações, nem a vítima de seu ressentimento.