Por Eugênio Araújo
Master em Jornalismo - Que papel o treinamento e qualificação profissional exerce no cotidiano das empresas do grupo? Há algum programa de incentivo ao desenvolvimento cultural dos jornalistas da rede?
João Roberto Marinho - Com certeza. Estamos hoje convencidos de que só jornalistas mais bem preparados podem entender melhor o mundo e, assim, traduzi-lo para o leitor, o ouvinte ou o telespectador. Investimos uma boa quantidade de recursos no treinamento de nossos profissionais. Organizamos cursos internos, palestras, para que todos se reciclem. É muito comum que, antes de um período eleitoral, organizemos um curso no Globo ou na TV, apenas para citar dois veículos, sobre legislação eleitoral. Na questão da biossegurança foi necessário chamar geneticistas e biólogos para que nós pudéssemos fazer nossas coberturas. E assim em todos os assuntos: reforma tributária, reforma da previdência etc. O Globo tem um curso anual destinado a disseminar cultura a um grupo de jornalistas que passam por uma seleção. E a Globo faz um ciclo anual de palestras também, com o mesmo objetivo. Fora isso, estimulamos nossos profissionais a fazerem também cursos de especialização em algumas instituições.
Master - Como está arquitetado o sistema "cross media" nas Organizações Globo. Jornais, tv, rádio e Internet já estão conversando diariamente, buscando eficiência dos meios do Grupo?
João Roberto - Nossa longa experiência nos mostrou que as redações têm de ser independentes, não há jeito. Os meios são tão específicos que não há como juntá-los. Como exercício, chegamos a pensar que num futuro não muito distante poderíamos trabalhar com o repórter multimídia: ele sairia para fazer a sua matéria e, na volta, escreveria um texto para o jornal, daria o seu boletim na rádio, editaria a sua matéria para a TV e ainda poria tudo na internet. Mas o “timing” e a característica de cada veículo inviabilizam esse esquema. O jornal necessita, como eu disse, de uma apuração mais aprofundada, e isso o obriga a permanecer mais tempo apurando a reportagem. O rádio, num grande assunto, necessita de múltiplas entradas do repórter, que deve acompanhar o fato minuto a minuto, mais do que explicá-lo. A televisão requer um profissional completamente diferente: além das características que todo repórter deve ter, o repórter de televisão deve ter o dom de saber falar para câmera, deve ter um olho no que é a melhor imagem, deve ter o que chamamos de “carisma”, de “empatia”, deve saber narrar a reportagem com a escolha certa das palavras e do tom da voz.
Um grande repórter de jornal talvez nunca consiga reunir todas essas características para trabalhar em TV. E um grande repórter de TV talvez tenha dificuldade de se adaptar ao trabalho de um jornal impresso. A TV exige também jornalismo em tempo real, narração dos acontecimentos. E, mais tarde, edições explicativas daquele evento para os telejornais, edições curtas que, em dois, três minutos, resumam o que aconteceu e contem o que aconteceu. São trabalhos diferentes na forma. Tudo é jornalismo. Tudo deve ser feito com grande qualidade, mas são trabalhos com linguagens diferentes. Algumas experiências nesse sentido foram tentadas nos Estados Unidos. Visitamos jornais assim. E logo percebemos que isso só seria possível em esquemas voltados para um jornalismo ultralocal de uma pequena cidade.
O que se pode fazer, e nisso estaremos sempre trabalhando, é nosso portal de notícias na Internet se valer de sinergia com todas as nossas redações, compartilhando aquilo que é comum a todos: uma boa central de apuração, para onde os fatos convergem. Conhecendo os fatos, cada veículo decide como cobrir. E alimentam nosso portal. Em nosso grupo, desde sempre, as redações são totalmente independentes. E até concorrem entre si pelo furo.