Por Eugênio Araújo
Master em Jornalismo - Quanto à entrada de capital externo para ajudar o desenvolvimento dos grupos brasileiros de comunicação: há um benefício nessa legislação, ou risco de perda de independência jornalística? E como, hoje, a Diretoria das Organizações Globo analisam o financiamento obtido pela empresa junto ao grupo Time-Life, na década de 60?
João Roberto Marinho - Creio que o limite estabelecido pela Constituição está correto. É preciso assegurar que os meios de comunicação, estratégicos para qualquer país, estejam em mãos de brasileiros. Isso é fundamental para a nossa soberania. Sobre a Time-Life, na época meu pai enfrentou a CPI de maneira muito transparente. O contrato era de assistência técnica, o que hoje chamaríamos de “consultoria”. Toda a polêmica resultou positiva, para o país e para a TV Globo. Hoje, qualquer pesquisador poderá descobrir que mesmo antes da interrupção do contrato, já se tinha noção de que o perfil da televisão americana não faria sucesso entre nós. Foi a decisão de fazer uma TV brasileira, voltada para a nossa cultura e os nossos valores que foi determinante para o nosso sucesso.
"Nosso único compromisso político é com os valores democráticos."Não creio, por esse motivo, que a relação com a Time-Life fosse adiante, mas o fato de que o rompimento tenha sido precipitado pela polêmica resultou positivo. Meu pai enfrentou dificuldades financeiras quase instransponíveis, mas foi a imposição de desfazer o acordo técnico com a Time-Life que permitiu a ele aprimorar, ainda mais, uma característica que é a marca do nosso grupo: reinvestir tudo no negócio, ter um olho sempre atento a custos, apostar na cultura brasileira e atrair os melhores talentos.
Master - Nos últimos anos, jornais impressos da rede e a programação jornalística mais local passou a externar opinões. Deu espaço para que jornalistas montem editoriais claros, na defesa do cidadão ou de benefícios para a cidade, estado ou País. Como está organizada a emissão das opiniões do grupo? O corpo de editorialistas do jornal O Globo, por exemplo, tem "livros-de-cabeceira" que sustentem as idéias propagadas? A democracia norte-americana serve de modelo para as teses opinativas?
João Roberto - O Globo sempre teve opiniões muito claras, expressas em seus editoriais nesses 80 anos. Até a última reforma gráfica, publicava editoriais na primeira página. Sempre procurou separar o que é notícia do que é opinião. Os fatos devem ser noticiados com isenção. E o jornal dever ter opinião sobre eles. O que não pode acontecer em hipótese alguma é confundir as duas coisas, levando o leitor a tomar a opinião pelo fato ou o fato pela opinião. Foi assim que em nossos jornais os editoriais vêm sempre impressos de modo a que os leitores os identifiquem expressamente como editoriais. Temos um corpo de editorialistas, jornalistas dedicados em tempo integral a essa tarefa. E temos um Conselho Editorial das Organizações Globo que eu coordeno. Semanalmente, ele se reúne, com a presença do editor de opinião do Globo e de diretores de redação de todos os veículos do grupo. Ali, debatemos os principais assuntos do Brasil e do mundo, de forma a tentar entender o que se passa à nossa volta e a criar convicções. Muitas vezes recorrermos a palestras de especialistas, quando não dominamos algum assunto – o que é bastante freqüente. A reunião se destina exclusivamente a municiar nossos editoriais, já que, no noticiário, a regra é tudo noticiar, dentro de nossa ética, princípios e valores.
Em televisão, raramente emitimos a nossa opinião. Isso só acontece em ocasiões realmente especiais e, quase sempre, para responder a quem nos cita, quando é o caso. Mas não acreditamos que a televisão seja o veículo adequado para que nossas opiniões sejam divulgadas. Preferimos fazer isso por meio de nossos jornais e revistas. Num jornal impresso, um leitor que não esteja interessado no que nós pensamos simplesmente pula o editorial, deixa de lê-lo. Em televisão, isso é impossível: a característica do veículo obriga o telespectador a ver e ouvir o que exibimos. O telespectador não pode simplesmente diminuir o volume naquela hora. Pode desligar a televisão ou mudar de canal, mas isso, claro, não é desejável. Dessa forma, não consideramos apropriado impor nossa opinião sobre os mais variados assuntos aos telespectadores.
E aprendemos ao longo de toda a nossa experiência que é isso o que os telespectadores esperam de nós. Eles querem notícias, querem conhecer os fatos, entender os fatos. Nisso, nosso modelo segue o americano. Aqui se difundiu a idéia de que os âncoras dos telejornais das redes abertas emitem opiniões a cada notícia ou mesmo nas notícias mais importantes. Mas isso não acontece, de forma alguma. Eles são jornalistas e são os editores-chefes de seus jornais, mas, no ar, não dão opinião. Ninguém tem uma opinião inteligente para dar depois de cada notícia ou depois da maior parte das notícias. Nem o público deseja isso. Talvez se possa dizer que a opinião do âncora esteja espelhada na seleção dos assuntos que escolhe pôr no ar. Eles, como aqui, em apenas poucos e graves momentos lêem editoriais, que expressam, não a opinião deles, mas a da casa. Nos telejornais locais, onde há mais tempo, o âncora se põe na condição de cidadão e, talvez aí, comente mais a vida da cidade, sem que os comentários se convertam em “editoriais”, no entanto.