Por Eugênio Araújo
Master em Jornalismo - Hoje existem condições estabelecidas para que proprietários ou parentes das empresas do grupo trabalhem na TV, jornais ou revistas do grupo. Quais são estas condições e como foram determinadas?
João Roberto Marinho - A quarta geração tem regras para ingressar no grupo. Há pré-requisitos que todos devem cumprir. Todos têm a formação profissional acompanhada. Fazem estágios monitorados em diversas áreas, mas, para ingressar como executivos, precisam ter ao menos mestrado. Construímos um programa de formação das futuras gerações auxiliados por uma consultoria que nos mostrou as melhores práticas em grandes empresas familiares. Temos também um conjunto de regras para os membros da família que já estão nas empresas.
Master - Como entender, no Brasil, a questão no monopólio da informação a partir de grupos que, em determinada região, possuam jornais, rádios e emissoras de TV. Dos pontos de vista Ético e Legal, as redes de comunicação são ameaça ou oportunidade?
João Roberto - Não vejo como as redes de comunicação possam ser vistas como ameaças. Não existem nações fortes e livres sem redes de comunicações fortes. A propriedade de jornais, rádios e emissoras de TV numa mesma região não determina monopólio algum, porque o público continua livre para optar por seus preferidos. Nós das Organizações Globo temos enorme respeito pela capacidade de discernimento do público. Já disse isso antes e repito agora. Porque, diariamente, nós sabemos o esforço que nos custa conquistar a preferência do público, que exige, sempre, qualidade. Em TV, falar em monopólio é um absurdo: não há consumidor mais livre e disputado. Qualquer um, diante do televisor, pode mudar de canal a hora que quiser, caso não esteja satisfeito com o que vê. Hoje, com a disseminação do controle remoto, tudo é ainda mais fácil. O público escolhe o programa que mais lhe agrada, é sempre assim. Volto a citar Dominique Wolton, que diz que se o público tem discernimento para escolher quem será responsável pelos destinos do país terá necessariamente também discernimento para escolher os seus programas de TV. E ele escolhe sempre os melhores.
Wolton diz que a baixa qualidade da TV aberta, quando existe, diz mais sobre os preconceitos dos programadores em relação ao público do que ao gosto do público. E para provar o que diz, Wolton cita exatamente a Globo, a quem atribui uma programação de alta qualidade. Toda vez que nossos concorrentes surpreenderam o público com qualidade tiveram êxito nos índices de audiência. Que isso não seja freqüente é algo que deve levá-los à reflexão. Com a experiência de 40 anos de Globo, nós podemos assegurar: só existe êxito se houver qualidade. Não existe milagre. O mesmo acontece com todos os nossos outros veículos. É a qualidade que faz deles os preferidos entre concorrentes. É importante ressaltar isso: “Entre concorrentes”. Jamais estivemos sozinhos em nossos mercados. Nosso sucesso é fruto da qualidade dos nossos veículos, jamais da ausência de concorrência.
Muitos dizem sempre que a razão do sucesso do Globo e do Extra é a TV Globo. Eles se esquecem de que O Globo tem 80 anos de sucesso, e a Globo, 40. O sucesso do Globo e do Extra tem a ver com a qualidade do jornalismo que produzem e com a qualidade do jornalismo da concorrência. Não pode ser diferente. Veja o caso do Diário de São Paulo, recém-lançado. O jornalismo que ele produz é excelente, a TV Globo é líder absoluta em São Paulo, mas o jornal ainda está muito longe de alcançar números mais largos de circulação, mesmo estando voltado para as classes mais populares, num mercado que tem jornais com qualidade e tradição como Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde. Neste caso, a concorrência nos enfrenta com a arma da qualidade. Isso é bom para o público e desafiante para nós.