Master em JornalismoMaster em Jornalismo

Instituto Internacional de Ciências Sociais

Universidade de Navarra

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Desafios da audiência de 100 milhões de pessoas

João Roberto Marinho abre as portas do jornalismo global

Por Eugênio Araújo

Comunidade

Master em Jornalismo - Na década de 90, mais do que reconstruir a imagem, as Organizações Globo passaram a investir mais num jornalismo investigativo e voltado para a comunidade. Quais os fatos marcantes dessa nova fase e quais as mudanças estruturais que permitiram aos veículos da Rede atuar de maneira mais independente na luta pela Liberdade de Imprensa?

João Roberto Marinho - As Organizações Globo nunca precisaram reconstruir a sua imagem. Estamos em permanente evolução. Nossa rede de televisão é a preferida da imensa maioria dos telespectadores brasileiros, nossos jornais são líderes de circulação no Rio de Janeiro e o Sistema Globo de Rádio é um enorme êxito há muitos anos justamente porque a nossa imagem é a melhor possível. Todo jornalismo para nós, em essência, é investigativo e deve estar voltado para a comunidade. Toda pauta, a rigor, é um roteiro de investigação: a fórmula do lead - o que, quando, como, onde e por que - é o resumo do que deve ser investigado, em qualquer área. Talvez o que ocorra hoje é que numa democracia em construção, como a nossa, que ainda está consolidando as suas instituições, as faltas no trato da coisa pública ainda sejam grandes e elas, num ambiente de imprensa livre, acabam reveladas e investigadas. Isso é saudável, é necessário.

"Nosso único compromisso político é com os valores democráticos."

Seu outro ponto - jornalismo voltado para a comunidade - é prioridade nossa desde a fundação do Globo, há 80 anos. Seremos sempre ligados à comunidade em que estamos. Nossos jornais terão sempre um forte noticiário de cidade, estejam onde estiverem. É assim com o Globo, com o Extra e com o Diário de São Paulo. E é assim também nas rádios e na TV. Somos pioneiros em televisão com jornalismo comunitário: em todo o país, temos quase duas horas diárias de jornalismo local. O sucesso da Globo está historicamente ligado ao jornalismo comunitário: poucos meses depois de entrar no ar, nossa primeira emissora cobriu tão bem as enchentes de 1966 no Rio de Janeiro que rapidamente ganhamos o primeiro lugar na audiência. O Rio se viu retratado na Globo. Hoje, creio, esse sentimento é de todo o país.

É essa nossa força que nos permitiu sempre lutar com independência, pela liberdade de imprensa em nosso país, desde que O Globo surgiu, na década de 20. Mesmo nos períodos de exceção, quando o uso da força nos constrangeu. Outro dia mesmo caiu-me nas mãos uma edição especial do Globo, no fim do governo Bernardes, denunciando todas as ilegalidades daqueles anos em que o país viveu submetido ao estado de sítio. Desde muito cedo em nossa história nosso compromisso foi esse. Para um grupo que tem 80 anos, nada é novo. Muito menos a luta por liberdade de imprensa, esta sim uma obsessão numa casa de jornalistas como a nossa.

Master - Analistas de mídia (no Brasil, nos EUA e Europa) enfatizam o histórico natural de jornais, revistas e emissoras de rádio e TV como grupos familiares. Como se deu, em rápidas palavras, a passagem da gestão das Organizações Globo da fase "patriarcal-familiar" para a profissional plena. Quais as vantagens e desvantagens dos dois formatos de administração?

João Roberto - Há uma confusão em torno do assunto. Muitos acreditam que uma empresa familiar necessariamente terá um estilo de administração ruinoso porque dependente exclusivamente do carisma do dono. Isso pode ser verdade em alguns casos, mas não é a regra. No nosso caso em particular, sempre se prezou muito uma administração compartilhada com bons profissionais. Com bons, não. Com os melhores. Hoje é bem conhecida a história de meu avô, Irineu Marinho. Diretor de Redação da Gazeta de Notícias, um jornal de muito prestígio no Rio de Janeiro do início do século XX, meu avô conseguiu levar consigo os melhores jornalistas para fundar o jornal “A Noite”, em 1911, que se tornou um êxito instantâneo. Humberto de Campos conta, num livrinho com perfis de personalidades do Rio daqueles anos, que o sucesso da Noite foi exatamente esse: ter sido um jornal, desde o início, feito por profissionais. Quando meu avô perdeu o jornal, ele reuniu todas as suas forças para fundar o Globo e, exaurido, morreu do coração apenas 23 dias depois da fundação. Meu pai tinha apenas 21 anos, e numa decisão que o marcou para o resto da vida, abdicou de assumir o comando do jornal porque tinha consciência de que ainda era um aprendiz. Quem conduziu o jornal ao longo dos seis anos seguintes foi Euricles de Mattos até que meu pai se sentiu em condições de assumir o comando plenamente. Mas, mesmo então, isso jamais significou uma administração despótica, em que o chefe fala e todos se calam.

Em primeiro lugar, porque meu pai era um jornalista e jornalistas sabem que um jornal é sempre uma obra coletiva. Em segundo lugar, porque meu pai também era um empresário talentoso e sabia que o trabalho em equipe é o que sempre dá melhores resultados. Ele sempre teve uma personalidade forte, mas sempre soube ouvir seus diretores, em quem depositava grande confiança. Ele foi sem dúvida o autor solitário de grandes decisões, apontou caminhos de forma intuitiva. Mas no desenvolvimento desse caminho e na administração do dia-a-dia, a diretoria sempre teve muita voz. A TV Globo é um bom exemplo. A virtude do meu pai foi antever a oportunidade que se abria diante dele mas, para concretizá-la, ele procurou atrair para o projeto as melhores cabeças e dar a elas a autonomia necessária para criar. Certo de que os valores em que acreditava seriam respeitados, a ele não incomodava entregar a administração de um veículo que ele não conhecia aos melhores profissionais do mercado. Toda essa cultura, toda essa nossa história nos foi muito útil na nossa evolução.

Nós acreditamos que as empresas com controle familiar tem mais visão de longo prazo e sua “alma” mais bem definida. Isso traz muitas vantagens para empresas de comunicação. Hoje, meu irmão, Roberto Irineu, é o presidente das Organizações Globo com a responsabilidade operacional do grupo. E nós, Roberto, José Roberto e eu, nos dedicamos aos assuntos estratégicos, preservação dos nossos valores, orientação editorial e formação das gerações futuras. E procuramos sempre – como meu avô e meu pai – nos cercar dos melhores talentos profissionais, criando um ambiente com alto nível de delegação onde todos possam se realizar profissionalmente. Portanto, a profissionalização de nossas empresas não é algo novo. O que fizemos de dez anos para cá foi formalizar processos que antes eram intuitivos.

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