Por Eugênio Araújo
Master em Jornalismo - Não incomoda à atual Diretoria das Organizações Globo ter, em sua história, registros de que os veículos da rede, nas décadas de 60 e 70, mostrarem ligação estreita com o regime militar? Afinal, historiadores chegam a identificar momentos em que a Rede Globo era quase um "Porta-voz" desse regime?
João Roberto Marinho - Não sei a que historiadores você se refere. Talvez a certos livros produzidos no passado, não com base em fatos, mas apenas no preconceito e na “memória” dos autores. O caso das Diretas é exemplar. Pelo menos em cinco livros, pesquisadores davam como verdade que a TV Globo tinha mentido a seus telespectadores dizendo que o comício das Diretas na Praça da Sé, em São Paulo, fora apenas uma festa popular para comemorar o aniversário da cidade, omitindo o caráter político da manifestação. Já tivemos oportunidade de demonstrar que isso se trata de uma mentira, abrindo nossos arquivos para provar isso. Não tenho notícia, porém, de que os livros tenham sido corrigidos. Talvez porque, no Brasil, dificilmente se passa da primeira edição. De qualquer forma, preconceito é algo difícil de se livrar. E ele vem sempre acompanhado de desinformação. Por exemplo: diferentemente do que muitos ainda repetem, nenhuma das cinco emissoras de televisão hoje pertencentes à nossa família foi uma concessão dos militares: duas delas foram concedidas durante o regime Roberto Marinho e os filhos João Roberto, Roberto Irineu e José Robertodemocrático pré-64 e três delas foram compradas de particulares, por valores de mercado. Não vejo nenhum problema nisso, mas o SBT e a antiga Rede Manchete, essas sim foram concedidas a seus controladores pelos militares, depois do colapso da Rede Tupi.
Da mesma forma, como falar em “porta-voz”, se até mesmo os nossos mais ácidos críticos reconhecem a independência de meu pai no comando jornalístico das empresas do grupo durante o regime militar? É famosa a referência aos “comunistas de Roberto Marinho”, um grupo de companheiros de esquerda que trabalhava em nosso jornal e em nossas emissoras e que, apesar de intensas pressões, meu pai sempre se recusou a demitir. Infelizmente, nem todos os donos de jornal agiram da mesma forma. Todos reconhecem também o cuidado de meu pai toda vez que algum de nossos companheiros era chamado a depor: ou ele ou um de seus irmãos acompanhavam o jornalista durante todo o depoimento para evitar que algo de pior pudesse acontecer.
O que as pessoas esquecem é que a censura à imprensa vigorou no país, de forma draconiana, desde a decretação do AI 5 até o fim da década de 70. A TV Globo que detinha, e, felizmente ainda detém, a maioria absoluta da audiência, era a mais visada, e os assuntos políticos sofriam controle rígido. Todos os jornais sofreram censura e nós não fomos exceção. Em 1964, O Globo apoiou a intervenção militar no processo político, no intuito de preservar a democracia. Mas, novamente, não fomos exceção. Os grandes jornais de então, dois deles ainda atuantes hoje, como o Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo, fizeram o mesmo. A História mostrou o equívoco de todos. Já há muito temos como axioma que nenhuma ameaça à democracia pode ser combatida fora da democracia. Jamais, porém, fomos porta-vozes de quem quer que seja. Essa afirmação chega a ser ofensiva. Você faz referência, sem citar nomes, a historiadores, que, a meu ver, como disse, pecam por falta de isenção.
Eu prefiro ficar com a opinião de um pesquisador estrangeiro, estudioso respeitado em todo o mundo, especialista em comunicação. Trata-se de Dominique Wolton, intelectual francês, diretor do laboratório de comunicação do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França. Já em 1990, ele publicou “O elogio do grande público”, um livro lançado aqui em 1996, mas, infelizmente, com pouca divulgação. Nele, Wolton defende as virtudes da televisão aberta: a criação do que ele chama de laço social, a coesão dos cidadãos que comungam de um mesmo corpo de valores, a manutenção da identidade e da cultura nacionais. Ele, um defensor da TV aberta pública, ao refletir sobre a encruzilhada a que chegou esse tipo de televisão na Europa, diz que no Brasil surgiu uma televisão privada que tem as virtudes da televisão pública sem os defeitos da televisão comercial. A coincidência entre o que nós entendemos ser a nossa missão e o que ele diz de nós é extremamente gratificante, especialmente porque vem de um estrangeiro com quem não travamos contato durante sua pesquisa e que nos vê de fora, com a isenção que isso lhe confere.
Peço licença aqui para reproduzir alguns trechos em que ele analisa a TV Globo: “Muito cedo, essa televisão privada comportou-se como se tivesse as limitações do serviço público. Em outras palavras, como se a lógica do lucro se somasse a uma tomada de consciência do seu papel social, nacional e cultural. Pois é sobre esses três planos que se desenvolve a ação da Globo. (...) Evidentemente, os militares ‘serviram-se’ da televisão, mas, como sempre, não dominavam a sua influência. (...) Honra seja feita. Uma grande parte da tradição ‘pública’da televisão brasileira e do seu papel de serviço público provém, na realidade, da hegemonia dessa televisão ‘privada’”. Que esse tipo de avaliação seja feito por um intelectual estrangeiro que goza de excelente reputação no meio acadêmico é motivo de muita alegria para todos nós, eu repito. Felizmente, esse tipo de análise também já começa a surgir em nossas universidades. É sempre assim: quando a paixão serena, a verdade aparece. Olhando para trás, para a nossa história, eu tenho só orgulho.
Nossa liderança deve ser buscada dentro desses limites. E eu me arrisco a dizer que a nossa liderança se mantém há tantos anos justamente porque isso foi sempre uma verdade em nossa casa. Não somos éticos porque somos líderes; somos líderes porque somos éticos. Esta é uma crença muito forte em todos nós. Desde muito cedo, meu pai teve a consciência de que empresas de comunicação social, mesmo privadas, têm uma dimensão de serviço público. Não me refiro às leis que regem o setor, mas a uma tomada de consciência nossa, que independe de leis. Sempre quisemos estar ao lado dos valores brasileiros, defendendo a cultura nacional. Nossa história mostra isso. E o povo reconhece essa nossa atitude e retribui com audiência. Nós aprendemos a respeitar o público, a ter a exata noção de que o público é exigente e quer qualidade. O que nós nos impusemos é atender e superar essa demanda.
Master - Para fecharmos esse ciclo histórico, como entender a postura do grupo em cinco episódios jornalísticos: a) coberturas parciais das greves de metalúrgicos do ABC em 1979 ; b) cobertura da eleição para o governo do Rio de Janeiro, em 1982; c) relutância na cobertura das Diretas-Já em 1983-84, d) a polêmica edição do debate entre os candidatos a presidente Fernando Collor e Lula e) a consolidação no período do slogan "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo"?
João Roberto - Creio que minha resposta anterior em grande medida já antecipa o que eu penso sobre o assunto. Alguns, ao escrever sobre tais fatos, confiaram excessivamente apenas na “memória”, contaminada sempre pelos próprios preconceitos. Se de fato pesquisassem em nossos arquivos, o resultado seria outro. Recentemente, publicamos o livro “Jornal Nacional, a notícia faz História”, em que revisitamos todos esses episódios. Foi um exercício inédito no jornalismo brasileiro: olhar para trás e analisar de forma aberta a própria experiência passada. Ficamos gratificados quando constatamos que veículos concorrentes admitiram que o livro foi escrito com honestidade intelectual. Da análise de todos aqueles episódios a partir de depoimentos dos profissionais que participaram dos mesmos, uma coisa fica clara: não há nada que possa nos envergonhar em nossa história. Nos casos citados, em todos eles, fizemos jornalismo, informamos o povo sobre o que estava acontecendo.
Em relação às coberturas, houve críticas em relação à ênfase ou à extensão de algumas delas. Mas houve também acusações caluniosas, sem base na realidade, e o livro demonstra isso. Ele foi um dos maiores best-sellers de 2004, tendo ficado por meses a fio nas primeiras colocações de diversas listas de mais vendidos. Ao redigir a pergunta do modo como ela foi redigida, você me faz imaginar que ainda não o leu. Eu, então, tomo a liberdade de recomendar fortemente a sua leitura. Não é justo me fazer resumir aqui, em poucas linhas, avaliação sobre tais episódios que, no livro, toma dezenas de páginas.