Por Eugênio Araújo
Master em Jornalismo - Ainda aproveitando esse clima de eleições e essa política de dossiês, etc., focando a questão ética e o respeito ao leitor e fonte, na sua opinião, está diminuindo, na imprensa brasileira, a chance de aparecer outros casos como o da Escola Base, ou você acha que ainda estamos cometendo muitos pecados nessa área?
Otavio Frias Filho - Acho que a imprensa brasileira tem sido, ao longo desses últimos anos, cada vez melhor, um pouco mais criteriosa e tem agido com um pouco mais de discernimento. + claro que o que se conseguiu em termos desses avanços ainda é muito pouco. Sou responsável pela parte editorial de um dos jornais diários com certa influência nacional no Brasil e me considero muito insatisfeito com o que se conseguiu em conjunto e com o que nós mesmos conseguimos na Folha no que diz respeito à precisão da informação apurada, correção do relato, cuidado em não prejulgar, cautela em ouvir e em levar ao leitor a versão das partes que são acusadas ou das partes que aparecem sob uma luz desfavorável.
Acho que o episódio Escola Base funcionou como um símbolo, um emblema, mas me preocupam muito as pequenas "escolas-base" que estão sendo cometidas diariamente, de maneira menos perceptível, menos gritante, mas nem por isso menos preocupante. Me lembro de uma peça dos anos 70 que se chamava "Pequenos Assassinatos", uma peça do Jules Feiffer, cartunista americano. Freqüentemente eu penso: bem, a Escola Base ficou famosa, mas, e esses pequenos assassinatos, essas pequenas "escolas-base", que estão acontecendo todo dia nos jornais sem que a gente nem tenha consciência disso?
Master em Jornalismo - Não há um retorno porque as vítimas são tão minúsculas...
Otavio Frias Filho - É verdade. A Folha tem alguns recursos para coibir isso. Tem o ombudsman, (atualmente Bernardo Ajzenberg ), que é uma instituição que tem funcionado razoavelmente bem; acho que tem sido uma ajuda útil para identificar falhas, corrigir erros, quebrar certos hábitos adquiridos. As redações funcionam muito à base de inércia. As mesmas pautas, as mesmas fontes, repercutir com as mesmas pessoas. É difícil quebrar essas inércias jornalísticas.
"A hipertrofia da televisão no Brasil e o consumo desproporcional de informação e entretenimento por meio da tv pelos brasileiros foram responsáveis pela virtual extinção da cultura de jornais vespertinos, muito forte no Brasil até os anos 60"A Folha conta com alguns recursos, como o Manual da Redação que, bem ou mal, dá um parâmetro e uma base para a discussão técnica interna. Nós procuramos efetivamente levar o Manual da Redação a sério e não considerá-lo como algo meramente ornamental, como ocorre em outros veículos. O Manual tem uma vida jurídica real na Folha, quer dizer, ele é observado. E quando é descumprido, isso vem à tona; há discussões com base no Manual. Porque o difícil no jornalismo, como em muitas outras atividades semelhantes, não é você estar de acordo com relação aos princípios e aos conceitos; é estar de acordo quanto à melhor maneira de aplicar princípios e conceitos em cada caso concreto. É aí que surgem as divergências. E o Manual dá alguns parâmetros, embora ainda teóricos, de aplicação de conceitos e princípios em casos concretos.
Ele é alguma garantia, uma certa garantia de que você está trabalhando com uma linguagem comum e que tem normas que, em tese, valem para todos os jornalistas e devem ser respeitadas e que são conhecidas do público. Muitas das interpelações que a Folha recebe da parte de leitores, críticos ou fontes são formuladas dessa maneira: "Ah, vocês estão desrespeitando o Manual, que na página tal diz isso"; isso é uma coisa muito útil. Nós fomos pioneiros em colocar o Manual da Redação à venda para o público justamente com o objetivo de que os compromissos normativos do jornal tivessem uma dimensão pública, e essa dimensão permitisse que o jornal fosse publicamente cobrado por aquilo com o qual se comprometeu ao promulgar o Manual. Ele dá uma garantia.
O ombudsman também é um fator que ajuda a inibir erros e coibir essa prática inercial de que os erros se repetem e as coisas continuam como sempre. Nós temos a seção diária Erramos, que não deixa também de ser um compromisso público do jornal; diariamente se publicam retificações ali. Pelos estudos estatísticos que temos, é uma fração pequena dos erros efetivamente cometidos que acaba chegando ao Erramos, porque nós não temos como identificar e processar a verificação de todos os erros cometidos pelo jornal.
Então procuramos, evidentemente, corrigir aqueles que chegam ao nosso conhecimento e que constatamos que, de fato, constituíram erros e procuramos retificar os mais importantes. Já fizemos estudos estatísticos levantando todo e qualquer erro em determinadas edições, exatamente para ter essa base estatística, e os resultados são de que é raro um erro importante não ser reconhecido em Erramos. Por outro lado, os Erramos correspondem a cerca de 10%, 15% do total de erros cometidos.
Master em Jornalismo - Isso já foi muito maior quando vocês iniciaram essas medidas de qualidade?
Otavio Frias Filho - Acredito que sim. Não tenho os dados aqui comigo, mas tem havido uma evolução lenta, insatisfatória, mas tem havido.
Master em Jornalismo - Falando de pessoas, porque de repente isso pode ser emblemático, o episódio da demissão do Fernando Gabeira, em Berlim, se não me engano, estaria inserido num contexto de afronta às normas como deveriam ser seguidas pelas pessoas que trabalham na Folha de S. Paulo? Ele estava participando de uma passeata, estava cobrindo na cidade alemã, e acabou se tornando personagem da manifestação...
Otavio Frias Filho - De fato, a gente tem uma tradição de vedar que o jornalista que esteja cobrindo um evento tenha alguma participação como pessoa física nesse evento. Acho que é uma norma de bom senso e realmente não consigo conceber um veículo que não adote essa norma.
Master em Jornalismo - Teve um episódio interessante em 1978. Você e um outro estudante de Direito, Mário Menucci, foram detidos pela Rota quando estavam fazendo a campanha do Fernando Henrique e do Eduardo Suplicy, então candidatos a senador e deputado estadual, dois personagens que estão no epicentro do poder hoje, um no governo, outro na oposição. Como é para você o resgate desse detalhe histórico hoje, com Fernando Henrique, presidente da República, e Suplicy, senador dos mais notórios?
Otavio Frias Filho - Você resgatou um episódio pré-histórico, fazia muitos anos que eu não pensava nisso (risos). Enfim, só posso dizer que as coisas mudam. Tem um personagem no romance do (Marcel) Proust , um alfaiate chamado Jupien, que, no começo do romance, é um obscuro alfaiate de bairro, e tem uma participação bem secundária, mas, no último volume do romance, muitos anos depois, ele é o principal alfaiate de Paris, que trabalha para os grandes salões, algo como se fosse hoje um desses Pierre Cardin, sei lá.
O destino desse Jupien sempre me vem à mente quando sou confrontado com episódios como esse. Já faz muito tempo, as coisas mudaram muito, o Fernando Henrique é outra pessoa e o Eduardo Suplicy idem. Aliás, quanto a este, acho que nem é o caso da mesma pessoa (risos). E eu, decididamente, sou outra pessoa. Enfim, tudo muda, nada é permanente, é claro.
Master em Jornalismo - Para fecharmos, sua análise de quais são os grandes jornais brasileiros e do exterior, na sua opinião; os grandes jornalistas do Brasil e de fora, e se você destacaria alguns colunistas também.
Otavio Frias Filho - Não sou um jornalista muito típico nesse sentido e até me ressinto disso. Devo confessar, não sou um excepcional leitor de jornais, leio menos do que deveria e acompanho até menos do que gostaria. Mas o fato é que eu não estaria entre os dez melhores leitores de jornal (risos). Evidentemente, leio todos os dias a Folha, leio os principais concorrentes ou pelo menos dou uma passada de olhos. Com alguma freqüência, vejo alguns jornais estrangeiros.
"Esse novo filão de jornalismo popular, com ênfase em serviços e com uma carga muito menor de sensacionalismo do que jornais similares do passado, é um filão promissor e deverá ter condições de sustentar jornais de boa qualidade por um tempo indefinido"Mas é um acompanhamento muito esporádico, não tenho suficiente conhecimento desse panorama tão amplo de veículos a ponto de dizer: "olha, os melhores a meu ver são esse, esse, esse, ou os colunistas imprescindíveis são esse, esse e esse". Qualquer escolha que eu fizesse, além de evidentemente subjetiva e aleatória, estaria muito prejudicada pelo fato de que não me considero um grande leitor de mídia e o pouco tempo disponível que tenho prefiro dedicar a outro tipo de leitura. Não posso opinar muito.
Agora, para não dar a falsa impressão de que estou fugindo à pergunta por razões políticas, diria que você há no Brasil diversos jornais de qualidade razoável e três jornais de qualidade boa: a Folha, O Estado e O Globo. Eu nunca leria, por exemplo, o jornal O Globo: não faz meu estilo pessoal, acho um jornal muito oficialista, muito local e muito cafona. Mas, não posso ignorar que esses três são jornais que alcançaram um patamar bom de qualidade. Agora, essas comparações, além de enormemente subjetivas, sempre dependem também, e isso é óbvio, do ponto de vista. Por exemplo, comparada com o restante da imprensa latino-americana, a melhor imprensa brasileira é bem melhor.
Comparada com a melhor imprensa da Europa Ocidental ou com a melhor imprensa americana, a melhor imprensa brasileira é inferior. Tudo são termos comparativos e que têm muito a ver também muito com a sua expectativa. Procuro alimentar uma expectativa mais exigente e o resultado é que acho todos os jornais frustrantes. Mesmo o The New York Times, que é tido e havido como o melhor jornal do mundo (não sei se é ou não, acho que essas avaliações são sempre um pouco pueris), não é, como leitor, minha leitura ideal. Acho que todo e qualquer jornal, dos melhores aos piores, sofre das vicissitudes do regime de produção, que é determinado pela pressa.
Master em Jornalismo - Você citou o The New York Times para falar justamente da dificuldade de se afirmar qual é o grande jornal mundial; de qualquer maneira o The New York Times está passando por mais uma das transformações, das poucas a que se deu o direito de fazer, procurando mudar o foco do local-local e efetivamente reforçando a chamada abrangência nacional do veículo. O Los Angeles Times publicou um material a esse respeito...
Esse é um problema que boa parte dos jornais tem: até que ponto vou a fundo na urbe onde estou em detrimento dos assuntos que rolam pelo resto do país ou pelo resto do mundo? Queria saber a sua opinião a respeito dessa dosagem do local e do global ou do nacional. Qual é o seu pensamento sobre isso?
Otavio Frias Filho - Cada veículo tem que encontrar a composição química da sua dosagem (cobertura local versus nacional). No caso da Folha, cerca de 50% da nossa circulação acontece na Grande São Paulo, cerca de 30% no interior do Estado de São Paulo e cerca de 20% em outros Estados da Federação. A Folha, sem dúvida, dos três jornais que têm um peso nacional (e eu acrescentaria o Jornal do Brasil pela tradição e pelo fato de que, ao que tudo indica, está passando por uma fase editorial interessante), é o que tem o maior percentual da sua circulação fora das fronteiras do Estado de origem.
Isso nos leva a ser um jornal ligeiramente mais nacional do que os outros e com espaço para o noticiário local às vezes também ligeiramente menor do que o dos outros. Mas ainda assim o noticiário local num jornal como a Folha é muito importante, não apenas pela boa razão de que metade do leitorado mora na Grande São Paulo. Também para o mercado publicitário, o forte é a Grande São Paulo, pelo menos para a imprensa diária. Aliás, para qualquer tipo de mídia, mas no caso de imprensa diária o cerne do mercado é a Grande São Paulo.
Master em Jornalismo - Otavio, quero registrar formalmente que o curso Master em Jornalismo agradece a sua disponibilidade de tempo. Sei que não é fácil para você poder conciliar essas coisas todas.
Otavio Frias Filho - Está ótimo. Agradeço muito pela oportunidade e peço desculpas pelas questões que não soube comentar ou responder de pronto.