Master em JornalismoMaster em Jornalismo

Instituto Internacional de Ciências Sociais

Universidade de Navarra

Área do Aluno

Otavio Frias Filho

Radiografia de um Jornal

Por Eugênio Araújo

Parte IV

Otavio Frias Filho

Master em Jornalismo - Você citou há pouco o caso do Extra, auxiliado pela TV, e me parece que no Rio Grande do Sul, com o Grupo RBS, isso também poderia explicar a aceitabilidade em grande volume do Diário Gaúcho. Aproveitando esse gancho, grupos de comunicação que fecham o circuito com rede integrada de jornal, rádio e TV tendem a ser, na sua opinião, hegemônicos nas praças em que atuam?

Otavio Frias Filho - Sem dúvida, sem dúvida. E acho que é muito preocupante, porque o que está ocorrendo, no cenário mais amplo da mídia, é o mesmo movimento que ocorre na economia capitalista como um todo. Ou seja - na verdade, é sempre assim - o movimento é de concentração e de oligopolização. Isso está ocorrendo nos Estados Unidos e, em alguma medida, está ocorrendo aqui no Brasil também.

Acho que toda essa revitalização do capitalismo, de 10, 15 anos para cá, a grande liberação de energias de produção, a queda das barreiras - sejam de natureza corporativa, sindical, alfandegária...-, essa enorme liberdade para produzir, investir e comerciar que está prevalecendo no mundo na verdade joga água no ninho da concentração do capital, da oligopolização dos grupos. Isso está ocorrendo também na mídia.

"A Folha se define publicamente como um jornal crítico, apartidário e pluralista, e essa marca de pluralismo é uma característica que se evidenciou muito nesse período de 76, 77, por conta dessa reforma que o Cláudio Abramo realizou no jornal"

Havia nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, limites à chamada propriedade cruzada nos meios de comunicação, a proibição de um mesmo grupo ter jornal, rádio e tevê, por exemplo, numa mesma praça. Essa proibição já foi fortemente flexibilizada nos Estados Unidos e existe um movimento de flexibilizá-la também na Inglaterra. O panorama que vejo é bem diverso dos apologistas da suposta democratização que a Internet traria à mídia.

Pode estar havendo alguma democratização pela margem, no varejo. Hoje em dia você tem uma certa facilidade de disponibilizar uma página de produção quase artesanal na rede. Mas no que diz respeito ao centro da atividade e ao que realmente importa em termos estatísticos, do ponto de vista de faturamento e de audiência, o movimento que vejo é de concentração e oligopolização. Isso está ocorrendo também no Brasil.

Master em Jornalismo - Nesse sentido, o capital externo da área de comunicação se configura como uma ameaça ou como uma oportunidade para os grupos de jornais, os grandes jornais já instalados no Brasil?

Otavio Frias Filho - Acho que é uma oportunidade para todos os grupos de mídia no Brasil. Quando essa legislação que admite a participação de capital estrangeiro na área internacional for aprovada (e tudo indica que ela será aprovada, embora provavelmente não no atual governo, como se imaginava anteriormente), os grupos vão se beneficiar da capitalização decorrente dessa autorização legal. Acho que esse benefício será potencialmente pequeno no caso da mídia impressa, e potencialmente maior no caso da televisão, sobretudo no que diz respeito à perspectiva de se beneficiarem as redes concorrentes da TV Globo.

Master em Jornalismo - Pela sua análise, a tendência está apontando justamente para um grande risco de monopólio, que dificilmente deixaria de ocorrer. A minha pergunta adicional é: o que pode ser feito pelos donos dos grandes jornais para impedir que isso ocorra dessa forma?

Otavio Frias Filho - Acho que o que pode ser feito são basicamente três coisas. Podem ser feitas alianças que propiciem algum tipo de sinergia, como se diz na linguagem empresarial, e, portanto, algum tipo de redução de custo. Outra coisa que pode ser feita é trazer a público a discussão sobre a excessiva concentração de poderes, de audiência, de influência política na Rede Globo. E acho que os veículos podem também, e devem, evidentemente tentar melhorar os seus produtos.

Mas o fato é que, de alguns anos para cá, a Rede Globo tem avançado, ou as Organizações Globo têm avançado em termos de comunicação e controle de diferentes mercados e diferentes tipos de mídia. E a crítica política às Organizações Globo, que já chegou a ser forte no Brasil, de uns anos para cá também amainou bastante.

Master em Jornalismo - Hoje, com as Organizações Globo, a Folha de S. Paulo é a um só tempo parceira e concorrente.

Otavio Frias Filho - Exato. É um aquele fenômeno a que me referi, de que o movimento da mídia, nos dias de hoje, implica essa situação de grupos concorrendo em um certo nível de atividade e se associando em outro.

Master em Jornalismo - Nessa análise nós falamos rapidamente de Internet. Agora, passado um tempo em que a Nasdaq e as cotações das empresas de tecnologia da informação mostraram outra realidade, nós poderíamos dizer que a imprensa escrita poderia ter superestimado a Internet? Muitos imaginaram, entre profissionais de imprensa e donos de jornais, de que a Internet iria nos engolir. Passado esse período todo, como você está enxergando a Internet nesse cenário?

"Olhando o perfil da Folha, sobretudo nesses últimos 20, 30 anos, se tivesse que grudar uma etiqueta, um rótulo, seria o de um jornal liberal radical em oposição a jornais como O Estado ou mesmo O Globo, que, se eu tivesse que colocar um rótulo, diria que são liberais conservadores"

Otavio Frias Filho - Como é uma coisa ainda relativamente recente, é difícil fazer prognósticos. Acho, no entanto, que as dúvidas e incertezas a respeito dessa matéria, que eram muito grandes há dois ou três anos atrás, se reduziram um pouco. Você tem a sensação de que hoje é possível ver algumas coisas com um pouco mais de clareza, e que há menos coisas a respeito das quais não se tem idéia do que vai acontecer.

Por exemplo, uma coisa que acho que começa a aparecer com alguma clareza é a especificidade do tipo de informação que a Internet é boa para transmitir. Já se sabia - e isso não é novidade - que a Internet é muito boa para o armazenamento e a transmissão de informação de alta verticalidade. Por exemplo, você pode criar um site sobre o Lord Byron que pouquíssimas pessoas vão acessar, mas, como o espaço ali é infinito, você pode ter tudo o que quiser sobre o Lord Byron naquele site.

Master em Jornalismo - Inclusive as obras completas...

Otavio Frias Filho - Obras completas, todos os comentários jamais feitos, obras sobre ele, etc. Então, em matéria de verticalidade, é um meio imbatível. Um outro aspecto - e aqui acho que é um dado novo - é que, no que diz respeito à informação especificamente jornalística, a Internet funciona muito bem com informação instantânea, evidentemente em tempo real, mas é um tipo de informação que tem muito a ver com serviço e que tem necessariamente uma certa superficialidade.

Curiosamente, o jornalismo na Internet me parece, se eu for procurar algum paralelo na história da mídia, assemelhado ao jornalismo de rádio. Ele é evidentemente diferente do jornalismo de jornal e de revista, mas me parece também diferente do jornalismo de televisão. Pelo menos no estágio em que está hoje, parece um jornalismo que tem características semelhantes ao do rádio.

Master em Jornalismo - Quando você estabelece o paralelo com o rádio, está falando que não é ameaça, é um outro bicho, é um outro veículo.

Otavio Frias Filho - Algo assim, algo assim. Inclusive, sem fazer muita ironia com os companheiros do jornalismo Internet, mas já fazendo, sofro um pouco quando leio os jornais, sobretudo quando leio a Folha, porque tendo a achar falhas, textos mal redigidos, etc. Agora, depois de ler os noticiários de Internet, você lê um jornal no papel e parece que está lendo Eça de Queirós , porque os textos na Internet, até pela pressa, são precários e improvisados (risos).

Essa é uma característica, de novo, semelhante à do rádio. E os jornais que se propõem a ter no suporte eletrônico uma função semelhante à dos jornais diários de suporte papel, ou seja, os jornais da Internet que não dão instantâneos a cada minuto, como o rádio faz, mas que se propõem a ser jornais eletrônicos, até agora não encontraram um espaço.

O jornalismo na Internet, até onde posso ver, pelo menos no caso brasileiro, é dominado pelo jornalismo instantâneo em tempo real, em estilo flashes, muito parecido com o modelo do rádio; e no que diz respeito ao jornalismo diário, ou seja, edições que se renovam a cada 24 horas, o espaço jornalístico na Internet foi ocupado pelos veículos tradicionais nas suas versões eletrônicas, a Folha on line, O Estado on line , O Globo on line etc.

Master em Jornalismo - Falando um pouco de conteúdo, nós estamos mais uma vez próximos de uma grande eleição, aqui no Brasil, e quando nos aproximamos desses períodos, a indústria de dossiês se multiplica nas redações. Com uma freqüência voraz, os grampos e as fitas originárias deles caem nas mãos do editor-chefe, do editor de Política, do diretor de Redação. Como você enxerga isso e qual o critério da Folha para separar o "joio do trigo", sem abandonar a notícia, sem abandonar o jornalismo ao considerar aquele material plausível para utilização?

Otavio Frias Filho - Nossa política tem sido condenar, evidentemente, a prática de gravações ilegais. No entanto, consideramos legítimo - mais do que legítimo, até necessário - que a imprensa, ao tomar conhecimento de alguma gravação, ainda que ilegal, que contenha fato de evidente interesse público, revelação de claro interesse público, publique esse material. Isso provoca alguns problemas porque, de fato, a imprensa acaba sendo usada, em alguma medida, pelas fontes que detêm essas gravações ilegais e que estão interessadas num momento ou noutro em divulgá-las. É um problema de fato.

Você não publica informações relevantes quando quer publicar, mas publica quando consegue chegar a elas e muitas vezes elas chegam a você, jornalista, por causa do interesse de alguma fonte de que aquilo seja divulgado naquele momento. O que cabe ao jornalista e ao veículo, a meu ver, é condenar a prática de gravações ilegais como princípio e, no entanto, se numa gravação ilegal existe algo que seja relevante, comunicá-lo ao público. Isso deve ser feito pelo jornalista ou pelo veículo. Não sem antes, evidentemente, atestar a veracidade, a autenticidade daquela gravação. Existem perícias que permitem, com razoável dose de segurança, atestar esse tipo de autenticidade.

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