Por Eugênio Araújo
Master em Jornalismo - Vou insistir na questão. Você considerou o aspecto de pressão, quer dizer, da não-existência de pressão de nenhum tipo, da total liberdade para os filhos. Mas você não negaria a influência natural, na cabeça do Otavinho, da vida dedicada dele, desde que adquiriu a Folha de S. Paulo, e o ambiente de jornal?
Otavio Frias Filho - Não me sinto muito confortável nessa posição porque sei que estou exercendo a atividade que estou exercendo e o cargo que estou exercendo por uma injunção familiar. Ao mesmo tempo, tenho uma relativa tranqüilidade de considerar que, nesse período que tenho respondido pela redação do jornal, ele não tem piorado, ao contrário, tem obtido uma série de êxitos tanto do ponto de vista de circulação como do ponto de vista de presença no mercado, na sociedade, de respeito, de prestígio, de credibilidade. Acho que minha gestão é defensável desse ponto de vista. Claro que a influência e o exemplo do meu pai tiveram um peso e têm ainda um peso enorme, tanto para mim como para meu irmão. Sem dúvida, foi a principal influência que recebemos do ponto de vista pessoal e profissional. Meu pai é uma espécie de modelo, do qual procuro me aproximar, ainda que com a sensação de nunca conseguir.
Master em Jornalismo - Seu pai tem alguns livros ou algum livro de cabeceira que ele cite com freqüência? E você também? De alguma maneira, essa literatura com base filosófica, sociológica ou humana poderia estar afinada com a Folha de S. Paulo?
Otavio Frias Filho - Meu pai sempre se definiu como um empresário, não como um jornalista. É claro que depois de tantos anos à frente de uma empresa de comunicação, ele, que é um homem muito inteligente e muito sensível, adquiriu características que justificam que seja considerado como um jornalista. Mas ele repudia essa qualificação, dizendo que é e sempre foi um empresário, não um jornalista. Como empresário, como um homem muito pragmático, nunca foi dado a qualquer tipo de cultura livresca. Pelo contrário, o tipo de literatura que leu e ainda lê é muito voltada para economia, e mais especificamente ainda para negócios.
Master em Jornalismo - No seu caso, você tem livros que considera que foram chaves na sua formação pessoal, no seu encaminhamento para o jornalismo?
"Meu pai sempre se definiu como um empresário, não como um jornalista. É claro que depois de tantos anos à frente de uma empresa de comunicação, ele, que é um homem muito inteligente e muito sensível, adquiriu características que até justificam que seja considerado como um jornalista. Mas repudia essa qualificação, dizendo que é e sempre foi um empresário, não um jornalista"Otavio Frias Filho - Na minha formação pessoal, sim, é claro. Embora eu pudesse citar aleatoriamente cinco, seis, oito livros, não significaria quase nada. Mas no que diz respeito ao meu encaminhamento para o jornalismo, acho que não tive uma influência muito determinante de um livro específico.
Master em Jornalismo - No lado pessoal, serei obrigado ainda a colocar mais uma questão natural. Eu vi você respondendo algumas vezes, em trabalhos de pesquisa, sobre a real influência que o Cláudio Abramo teve sobre o Otavio Frias Filho, se é que teve, como jornalista, como intelectual, como pessoa. Parte do que é a Folha hoje tem a ver com a atuação do Cláudio Abramo ou essa é uma visão equivocada, exagerada?
Otavio Frias Filho - Acho que a influência do Cláudio Abramo no jornalismo brasileiro, especificamente no jornalismo paulistano, foi extraordinária. Foi o responsável pela modernização editorial dos dois principais jornais da cidade: O Estado de S. Paulo , onde atuou nos anos 50, e a Folha, nos anos 60 e 70. No que diz respeito ao caso da Folha, acho que o grande mérito do Cláudio foi, por um lado, ter trazido sucessivas equipes muito talentosas para trabalhar na redação do jornal, tanto nos anos 60 como mais tarde nos anos 70.
E esse mérito pode ser compreendido também da seguinte maneira: numa época em que a empresa que publica a Folha estava passando por uma fase difícil de saneamento e de reorganização, numa época em que se investia relativamente pouco em recursos para a redação, ainda mais agravada pelo clima de ditadura que havia nos anos 60 e 70, o Cláudio Abramo conseguiu manter e elevar o nível jornalístico da Folha.
A Folha foi um jornal de boa qualidade, um jornal que tinha um peso específico nesse período, embora as condições fossem muito adversas. E nos anos 75, 76 e 77, o Cláudio fez uma das várias reformas pelas quais a Folha passou, que foi uma das mais importantes da história do jornal. Além de ter redesenhado o jornal graficamente, dando consecução prática a uma idéia do meu pai, de ter criado as páginas 2 e 3, especificamente a seção Tendências & Debates - que na época foi considerada importante tribuna livre num país que estava transitando para a democracia de novo -, o Cláudio Abramo reuniu um elenco muito amplo e muito diversificado de colaboradores e colunistas.
Alguns deles, felizmente, continuam na Folha até hoje e essa equipe definiu, assim, muito fortemente, uma característica de pluralidade que, de lá para cá, cada vez mais se associou à imagem pública da Folha. Como você sabe, a Folha se define publicamente como um jornal crítico, apartidário e pluralista, e essa marca de pluralismo é uma característica que se evidenciou muito nesse período de 76, 77, por conta dessa reforma que o Cláudio Abramo realizou no jornal.
Master em Jornalismo - E era meio complicado esse pluralismo, porque tinha as patrulhas ideológicas de esquerda e direita, acima e abaixo...
Otavio Frias Filho - É verdade.
Master em Jornalismo - Vou insistir no aspecto "livros", já que você é um intelectual também. É claro que se você citar oito livros aqui não vai resolver. Mas, sobre o que você considera o fundamento do que seria o pensamento a Folha ou daquela democracia a que você se referiu, alguns livros que você leu se aproximam do pensamento da Folha ou de alguma maneira dão um caminho? Mesmo que sejam pura literatura, eles dão um sentido ou um caminho para o que a Folha defende hoje?
"A influência do Cláudio Abramo no jornalismo brasileiro, especificamente no jornalismo paulistano, foi extraordinária. Foi o responsável pela modernização editorial dos dois principais jornais da cidade: O Estado de S. Paulo, onde atuou nos anos 50, e a Folha, nos anos 60 e 70"Otavio Frias Filho - Acho difícil fazer essa associação, porque na minha cabeça a literatura e o jornalismo são dois mundos tão à parte, tão separados. É difícil dizer. Olhando o perfil da Folha, sobretudo nesses últimos 20, 30 anos, se tivesse que grudar uma etiqueta, um rótulo, seria o de um jornal liberal radical em oposição a jornais como O Estado ou mesmo O Globo, que, se eu tivesse que colocar um rótulo, diria que são liberais.
Master em Jornalismo - Trazendo a coisa mais para o nosso tempo, como você entende a proliferação dos chamados jornais populares de qualidade, como é o caso do Agora , do Diário Gaúcho em Porto Alegre ou do Extra no Rio de Janeiro? Como você entende essa proliferação no ambiente brasileiro e qual o destino que você vê para esse tipo de publicação?
Otavio Frias Filho - Não saberia responder. A impressão que eu tenho é a de que a hipertrofia da televisão no Brasil e o consumo desproporcional de informação e entretenimento por meio da televisão pelo povo brasileiro foram responsáveis pela virtual extinção da cultura de jornais vespertinos, que chegou a ser muito forte no Brasil até os anos 60. Acho que a televisão tem um peso na destruição dos jornais vespertinos e no enfraquecimento da imprensa voltada para camadas populares, para um leitor de tipo mais popular. No entanto, tem havido nos últimos anos um aparente ressurgimento, e com uma vitalidade considerável, de jornais voltados para essa faixa mais popular ou jornais de qualidade voltados para um público mais popular. Não sei como explicar. Tenho a impressão de que isso (a proliferação de jornais populares de qualidade) pode ter a ver com a incorporação de uma massa grande de pessoas à economia por efeito do Plano Real. É uma hipótese, não sei. Acho que dependeria de estudos mais específicos para verificar em que medida isso faz sentido ou não.
Master em Jornalismo - Mas a Folha acabou entrando nesse mercado também pelo aspecto de atender à demanda, para atender a esse público. Fundamentalmente é isso. Agora, eu perguntei sobre o destino das publicações e o que você está dizendo é que não se sabe exatamente por que esse público existe dessa maneira. Também fica difícil saber o que vai acontecer com essas publicações. Você não arrisca um palpite?
Otavio Frias Filho - Eu diria que elas vão se consolidar. O Agora tem tido uma história de êxito, até o momento. Não tenho os números exatos de cabeça, mas ele está com uma circulação por volta de 120, 130 mil exemplares, na média, que é uma circulação expressiva, e o jornal tem ido bem. O Extra também é um êxito do ponto de vista de circulação no Rio de Janeiro, embora ali você tenha que levar em conta a variável da alavancagem que a Globo faz, anunciando e divulgando maciçamente o jornal.
Mas acho que esse novo filão de jornalismo popular, com ênfase em serviços e com uma carga muito menor de sensacionalismo do que jornais similares do passado, é um filão promissor e deverá ter condições de sustentar jornais de boa qualidade por um tempo indefinido.
Master em Jornalismo - Você considera plausível a gente imaginar que o leitor do Agora hoje pode ser o leitor da Folha de S. Paulo amanhã, pensando num degrau de assimilação da informação e de leitores formados?
Otavio Frias Filho - Acho que isso pode ocorrer em alguma medida. Não sei se vai chegar a configurar um fenômeno expressivo em termos estatísticos, me parece que não, mas em alguma medida isso pode ocorrer e deve já estar ocorrendo.