Por Eugênio Araújo
Master em Jornalismo - Esses editorialistas têm, cada um deles, a sua "expertise" - sua especialidade em um setor de conhecimento -, ou não há uma preocupação desse tipo?
Otavio Frias Filho - Sim, há alguma preocupação desse tipo. Mas não se trata de uma coisa estanque. O atual coordenador dos editoriais (a Folha tem esse tipo de editor de opinião) é o Vinicius Mota, sociólogo, graduado pela USP e com mestrado também pela USP. Trabalha com ele o Gilson Schwartz , economista, ex-professor da Unicamp, atualmente professor do Instituto de Estudos Avançados da USP. Trabalha também como editorialista o Hélio Schwartsman, um rapaz muito erudito, formado em filosofia, ex-aluno do Gérard Lebrun. Ele já trabalhou em outras funções na redação, na área de internacional e no caderno Mais! Essa equipe é completada pelo Marcelo Miterhof, economista com mestrado pela Unicamp.
Eles produzem diariamente os editoriais, os textos. Mas é uma obra em grande medida coletiva. É freqüente que mais de uma pessoa mexa num texto, é freqüente que um texto tenha por origem um esboço inicial que pode ser feito eventualmente por um editor da redação ou por um dos nossos consultores.
Master em Jornalismo - O conselho editorial da Folha, como está colocado no expediente, também colabora de alguma maneira ou a função dele é mais "macro" em relação à estrutura da Folha de São Paulo?
Otavio Frias Filho - A função dele é mais macro. Dificilmente tópicos específicos que serão objeto de um editorial são levados ao conselho editorial, até porque suas reuniões ocorrem bimestralmente. Nessas reuniões, o objetivo é ouvir como os integrantes desse colegiado estão percebendo o desempenho editorial da Folha num determinado aspecto. Pode ocorrer que questões polêmicas quanto à posição da Folha em relação a tal assunto sejam levadas, não só a esses encontros das sextas-feiras, mas também a uma reunião bimestral do conselho editorial, embora isso não ocorra com freqüência.
"No caso da atuação de um jornal, acho que é hipocrisia negar que ele obedece às leis de mercado, como todas as empresas. O que é obedecer às leis de mercado? Por exemplo, por que a Folha não publica mentiras deliberadamente? (...) É porque ele tem uma determinada relação com um determinado público e o jornal está, na medida do possível, atendendo às demandas desse público"Master em Jornalismo - Em que momento da história da Folha, recente ou um pouco mais longa, você considera que ela esteve ameaçada no seu exercício pleno da liberdade de imprensa e que efeito esse episódio pode ter trazido ao cotidiano do comando da redação da Folha?
Otavio Frias Filho - A censura prévia à grande imprensa foi suspensa no Brasil no final de 73, começo de 74, na passagem do governo Médici para o governo Geisel. De lá para cá, ou seja, de 74, 75 para cá, não houve uma ameaça efetivamente séria ao exercício da liberdade de imprensa no Brasil, do ponto de vista da chamada grande imprensa, dos grandes veículos.
Como você sabe também, a censura à chamada imprensa alternativa continuou por alguns anos e ela foi alvo de atentados da extrema-direita nesse mesmo período, sobretudo no governo Figueiredo. Mas de um modo geral não têm existido ameaças consistentes da parte do poder público à liberdade de imprensa no Brasil de 85 para cá.
Master em Jornalismo - O episódio do Collor, quando ele literalmente invadiu a Folha (na falta de uma expressão melhor), você não enquadraria como um risco à liberdade plena de imprensa no caso da Folha de S. Paulo?
Otavio Frias Filho - De fato houve períodos de tensão de 75 para cá. Durante os governos Geisel e Figueiredo nós estávamos numa transição, numa situação de meio caminho entre a ditadura e a democracia. É claro que nessa época o relacionamento entre os veículos e as autoridades era perturbado por momentos de tensão. Mas já no governo Figueiredo é difícil dizer que havia um cerceamento ao trabalho da grande imprensa. Havia - muito mais resultado do clima da época - uma certa prudência dos veículos em evitar tomar atitudes que pudessem servir de pretexto a grupos radicais de direita interessados em reverter o processo de abertura.
Havia um clima de cuidado ou de cautela, que em alguns momentos poderia até se aproximar de uma espécie de autocensura, mas não é possível afirmar que naquela situação houvesse censura. Não havia mais. E no período Collor houve também uma certa tensão, sobretudo nesse episódio a que você se referiu. Mas aí a situação já era completamente outra, a democracia já estava enraizada de maneira mais consistente no Brasil.
Estamos falando do começo da década de 90, início do governo Collor, e esse episódio da invasão policial às dependências da Folha foi superado rapidamente. O jornal teve uma atitude de protesto vigorosa, várias entidades da sociedade civil e representantes de organizações públicas e de partidos de oposição se solidarizaram com o protesto do jornal e o governo recuou.
Master em Jornalismo - Poderíamos dizer que uma coisa é a pressão e outra é o cerceamento da liberdade de imprensa...
Otavio Frias Filho - Uma coisa é a censura que tivemos, no caso da grande imprensa, até 74; outra coisa é uma pressão por trás da qual estava, em maior ou menor grau, uma certa ameaça velada. Era essa a situação que caracterizava a relação entre a Folha, pelo menos, e o governo, no período Geisel/Figueiredo. Da democratização propriamente dita para cá, ou seja, de 85 para cá, acho que o que se pode falar é de uma pressão legítima, pois nenhum governante gosta de ser criticado e todo governante se sente injustiçado pela mídia. Eles se queixam sobretudo dos órgãos que procuram manter uma atitude mais aguda de independência, de interpelação, de crítica, como é o caso da Folha. Mas de 85 para cá não tenho registro de algum episódio em que essa queixa tenha excedido os limites do que considero normais numa democracia, exceto no episódio da invasão policial, em 90.
Master em Jornalismo - O conceito de que a ética de um jornal como a Folha seria ditada pelo mercado e não pelos donos ou pelos acionistas continua válido em 2001, quando você já completou 17 ou 18 anos à frente do jornal?
"A médio e longo prazo a propriedade familiar nas empresas vai sofrer modificações profundas; é mais do que evidente que a tendência é de profissionalização e de as famílias se afastarem da gestão das empresas, dos negócios. Enfim, num mundo que está em evolução, nenhum dado deve ser considerado como um elemento fixo"Otavio Frias Filho - Acho perigoso responder sem antes deixar minimamente claro o que entendo pelos conceitos que embasam a questão formulada. Peço licença para fazer uma pequena consideração preliminar. Acho que, numa sociedade capitalista, a ética das empresas e, em última análise, a ética das pessoas, é determinada por forças e relações de mercado, independente da empresa, independentemente de ela ser uma empresa jornalística ou não. Isso, num plano mais sociológico e mais genérico.
É claro que certas áreas da atividade humana estão relativamente livres dessas injunções de mercado. Por exemplo, as relações pessoais, as relações afetivas, permanecem relativamente livres dessas injunções. Mas no caso da atuação de um jornal, acho que é hipocrisia negar que ele obedece às leis de mercado, como todas as empresas. O que é obedecer às leis de mercado? Por exemplo, por que a Folha não publica mentiras deliberadamente? Ou por que a Folha não publica fotos de grande apelo sensacional e de grande carga de horror, exceto quando essas fotos forem consideradas essenciais para a veiculação de uma notícia importante?
Ou, seguindo nessa seqüência de perguntas especulativas, por que a Folha dedica a maior parte do seu material a assuntos "sérios", tais como política, economia, cultura, e uma parte bastante pequena, comparativamente, a assuntos considerados "frívolos", como fofocas e tal? Por que o jornal faz tudo isso ou evita fazer essas coisas que eu mencionei? É porque ele tem uma determinada relação com um determinado público e o jornal está, na medida do possível, atendendo às demandas desse público.
Nesse sentido, acho que a atividade de um jornal é sempre determinada por relações de mercado e acho hipocrisia negar que isso seja verdade em qualquer jornal. É óbvio que essas relações de mercado não são automáticas, não são diretas; elas são mediadas por uma série de conceitos, são mediadas por uma série de fatores que não respondem necessariamente ao fator principal, que é o de mercado. Só para dar um exemplo: o nosso leitorado se divide em proporções quase iguais, 50% para cada lado, no que diz respeito a liberalizar ou não o aborto legal no Brasil, ampliar ou não o entendimento do aborto legal no Brasil. Isso não tem levado a Folha, no entanto, a evitar ter uma posição desse assunto, mesmo sabendo que essa posição necessariamente vai desagradar, em tese, cerca de 50% do seu leitorado.
Cito esse exemplo para dizer que a determinação do mercado sobre a atividade da mídia existe, sim, a meu ver, como dizem, por exemplo, os marxistas. Mas ela não é uma determinação mecânica, automática e direta, como muitas vezes defendem alguns marxistas. Há uma série de nuances, uma série de fatores que têm que ser levados em conta. Por exemplo, no que diz respeito à definição das posições da Folha em editoriais, a posição das pessoas que participam dessas discussões diárias e das discussões de sexta-feira tem condições de ser maior ou menor nessa definição. Meu pai, dada a posição que ele detém, possui uma influência decisiva nos casos controversos.
Mas há uma série de outros fatores que são levados em conta. Por exemplo, a jurisprudência interna: o jornal não pode dizer hoje algo que seja flagrantemente diferente do que ele dizia há três anos, ou há sete anos ou há 12 anos, exceto se ele houver realizado uma reflexão e tiver mudado sua posição. Acho perfeitamente legítimo que um jornal mude a sua posição a respeito de um assunto, mas acho que essa mudança de posição deve ser precedida de uma reflexão e discussão internas e deve ser abertamente informada ao público leitor.
Essa jurisprudência tem um peso muito importante na composição da linha editorial. Muitas vezes, os próprios editorialistas consultam os arquivos dos editoriais e argumentam: "Olha, nós não podemos dizer isso porque há três anos dissemos algo que é diferente disso". Isso que eu estou chamando jurisprudência interna tem um peso que não é determinante, mas exerce uma influência grande.
Master em Jornalismo - Falando sobre seu pai, a inevitável questão: qual a real influência exercida por ele na sua decisão de tornar-se o diretor de redação da Folha e em que momento isso ficou claro na sua vida?
Otavio Frias Filho - Meu pai sempre foi uma pessoa muito livre do ponto de vista de atitude pedagógica com os filhos, sempre discutiu abertamente, sempre tratou os filhos de igual para igual e sempre deixou aos filhos uma opção muito desimpedida sobre o que eles pretendiam fazer no futuro. Nunca houve nenhum tipo de pressão ou de pedido para que meu irmão Luís (Frias) ou eu viéssemos trabalhar aqui. É claro que acho que ele, em alguma medida, ficou contente por isso ter acontecido, sobretudo porque, por um acidente do acaso, eu tenho alguma aptidão para o trabalho editorial e meu irmão, a meu ver, tem uma indubitável aptidão para o trabalho empresarial.
Costumo brincar dizendo que eu era bom em português e meu irmão era bom em matemática, quando crianças (risos). Mas nunca houve nenhuma pressão da parte do meu pai nesse sentido, nenhuma expectativa, e a gente sabe também que essas coisas na vida devem ser vistas de uma maneira provisória, porque hoje estou aqui, mas eu tenho outras áreas de interesse, não sei o que vou estar fazendo amanhã.
Acho que a médio e longo prazo a propriedade familiar nas empresas vai sofrer modificações profundas; é mais do que evidente que a tendência é de profissionalização e de as famílias se afastarem da gestão das empresas, dos negócios. Enfim, num mundo que está em evolução, nenhum dado deve ser considerado como um elemento fixo.