Por Eugênio Araújo
Um jornal com 80 anos de vida, que se autodefine com auxílio de três linhas básicas: conservador em economia, liberal em política e revolucionário em cultura. Bem humorado, o diretor-responsável da Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho, 44 anos, recorre a uma "boutade" para identificar parte do conjunto das missões do jornal.
Ousado como o jornal que dirige há 18 anos, Otavio Frias Filho, numa entrevista exclusiva ao Master em Jornalismo, reafirma sua visão de que o conceito de ética num jornal como a Folha é ditado pelo mercado e não pelos donos. Porém, pediu espaço e tempo para explicar esta frase que norteia a vida do periódico, destacando que o jornal não abre mão da democracia, da luta pelas liberdades individuais, além de ser contra a tirania de governantes. "Tudo isso sem esquecer a realidade da influência do mercado e da dinâmica social, pesando sobre os valores". E conclui: "Negar isso é hipocrisia". Detalhes dessa conduta são difundidos entre editores e repórteres, com ajuda do Manual de Redação da Folha, e estão vivos nos editoriais desenvolvidos diariamente, sob supervisão final do pai Octavio Frias.
O bate-papo com Otavinho ainda percorreu caminhos reveladores, como o peso real do jornalista Claudio Abramo na vida pessoal e profissional do diretor da Folha, a vacina contra a indústria de dossiês políticos, alicerçados em grampos telefônicos, e o resgate "pré-histórico" de um dia em que Otavio Frias Filho foi detido ao fazer campanha para os então candidatos ao Senado e à Assembléia Legislativa (SP) Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy.
Master em Jornalismo - Olhando a Folha de S. Paulo nesses 80 anos, tendo em vista o binômio missão/valores, qual a sua missão e que valores defende? Ou que valores sempre defendeu?
Otavio Frias Filho - O jornalista Luís Alberto Bahia costuma contar uma anedota, ou dizer uma "boutade", que é mais ou menos a seguinte: a fórmula do jornal burguês é que ele seja conservador em economia, liberal em política e revolucionário em cultura (risos). Dado o desconto da brincadeira, diria que essa fórmula de alguma maneira se aplica aos jornais de grande circulação, pelo menos no ocidente. A Folha se enquadra também nesse parâmetro mais geral.
É evidente que existem especificidades, com gradações de um jornal para o outro. No que diz respeito à história da Folha, eu identificaria dois aspectos mais notáveis. O primeiro é o de que não se trata de uma história linear. O jornal, desde 1921, atravessou diferentes períodos, esteve sob o controle de três gestões diferentes do ponto de vista do controle acionário, e é um jornal que, em meio a idas e vindas e algum eventual zigue-zague, foi crescendo juntamente com a cidade de São Paulo.
"No período Collor houve também uma certa tensão (...) Estamos falando do começo da década de 90, início do governo Collor, e esse episódio da invasão policial às dependências da Folha foi superado rapidamente. O jornal teve uma atitude de protesto vigorosa, várias entidades da sociedade civil e representantes de organizações públicas e de partidos de oposição se solidarizaram com o protesto do jornal. O governo recuou"Gosto de mentalmente associar o tipo de crescimento que a Folha teve com o tipo de urbanização acelerada que houve no Brasil, especificamente em São Paulo, sobretudo dos anos 20 para cá. Essa é uma característica, a de um jornal com posições que se alteraram ao longo do tempo.
Esse tipo de perfil histórico tem um aspecto vantajoso, pois resulta num jornal mais permeável às influências, às mudanças, um jornal que reage mais vivamente às alterações na esfera política, na esfera demográfica da cidade e tudo mais. Eu destacaria essas duas características. É um jornal que tem passado por uma evolução rápida, nervosa, às vezes tumultuada, em consonância com um crescimento também rápido, nervoso e às vezes tumultuado da comunidade em que ele se insere, e na qual ele foi concebido.
Ao mesmo tempo, é um jornal que, mercê dessa característica, é menos dogmático, é mais flexível, responde com mais rapidez às demandas, é um jornal que não tem uma rigidez ou uma inflexibilidade do ponto de vista programático e assim por diante.
Isso não significa que não haja linhas de continuidade nesse período de 80 anos. Tampouco significa que a Folha não seja, sobretudo no período de 20, 30 anos para cá, um jornal que tem estado num espaço mais ou menos nítido no espectro de opiniões e de sentimentos, por assim dizer, que existem na sociedade. Poderemos comentar esse aspecto, eu imagino, mais adiante.
Master em Jornalismo - Pelo que estou sentindo, você está deixando claro que o jornal acompanha o seu tempo, acompanha a sociedade em relação a esse binômio missão/valores. Mas hoje, se a gente der um corte e pegar esse pedacinho do DNA da história, agora, na virada desse século, fundamentalmente em que valores e em que missão a Folha está baseada?
Otavio Frias Filho - É um jornal que está compromissado com os valores da democracia representativa e com os direitos da pessoa humana, é um jornal também comprometido com os valores da economia de mercado e é um jornal especialmente preocupado com a reprodução histórica das estruturas de desigualdade e disparidade sociais e regionais no Brasil. Esses três aspectos são constitutivos do que seria o eixo da orientação editorial da Folha e aparecem, de uma forma ou de outra, na composição das edições, sobretudo na orientação específica dos editoriais publicados na página 2.
Poderia citar alguns itens que dão um pouco mais de concretude à generalidade dessas posições. Por exemplo, a Folha tem sido favorável às privatizações ocorridas durante o período do atual governo, embora tenha ressaltado a necessidade de que a regulação pelas agências tenha um caráter mais público.
A Folha tem sido favorável a políticas de estímulo às exportações, substituição das importações, proteção de indústrias nascentes, formação de grupos empresariais brasileiros fortes e competitivos no exterior, um aspecto que matiza um pouco o caráter liberal em economia da posição do jornal como um todo. A Folha tem defendido políticas de renda mínima, a adesão do Brasil à Alca, desde que haja contrapartida da parte dos norte-americanos e especificamente desde que se obtenha a extinção ou a redução dos mecanismos extra-tarifários para defender nichos de negócios nos Estados Unidos, como aço, calçados, suco de laranja, açúcar, etc. A Folha propõe que o Mercosul seja uma zona de livre comércio e não uma união aduaneira, como tem sido até agora.
O jornal mantém uma política apartidária nas coberturas de eleições; também não tem se pronunciado a favor dessa ou daquela candidatura, desse ou daquele partido político, em nome de resguardar essa política, o que, na concepção do jornal, permite uma autonomia crítica, uma liberdade de movimentos opinativos muito ampla.
A Folha tem sido contrária às intervenções militares não referendadas pelo Conselho de Segurança da ONU, como foi o caso recente em Kosovo; tem sido contrária ao embargo norte-americano contra Cuba e contra o Iraque. Em aspectos ou temas mais ligados à vida cotidiana, a Folha tem sido favorável a uma série de medidas que permitam liberalizar a prática do abortamento no Brasil; a Folha é evidentemente favorável à união civil entre pessoas do mesmo sexo.
"Numa sociedade capitalista, a ética das empresas, em última análise, a ética das pessoas, é determinada por forças e relações de mercado, independente da empresa, independentemente de ela ser uma empresa jornalística ou não. Isso, num plano mais sociológico e mais genérico"A Folha tem sido favorável à descriminação do uso de drogas e tem sido também favorável à clonagem de células humanas para fins terapêuticos. A Folha acredita que é conveniente que se realize uma reforma agrária, desde que por meio de instrumentos fiscais. Tem sido a favor de políticas públicas que coloquem à disposição da população informações sobre meios de contracepção. Apoiou a virtual extinção da propaganda de produtos relacionados ao tabaco e propõe que essa medida seja estendida também à bebida alcoólica.
A Folha é favorável à ampliação das penas alternativas e à restrição da pena privativa de liberdade para os casos em que o condenado apresente risco físico, periculosidade física. O jornal é obviamente contrário à pena de morte. Enfim, destaquei alguns aspectos para dar um pouco de concretude a esses enunciados gerais. A favor da democracia todo jornal em tese é, a favor do livre mercado a esmagadora maioria dos jornais também é. Enfim, alguns tópicos mais concretos como esses permitem dar um pouco de colorido real, específico.
Master em Jornalismo - De que democracia estamos falando? A questão seguinte é mais de caráter técnico em relação a fazer jornal, que é a preocupação com a escrita diária dos editoriais. Qual é o sistema adotado, qual é o formato que a Folha concebeu ao longo dos anos e como funciona hoje a elaboração dos editoriais? Houve um formato muito diferente há algum tempo? Que pessoas colaboram hoje?
Otavio Frias Filho - O formato atual, com pequenas alterações, é o mesmo já há algum tempo. Eu trabalho diariamente aqui no jornal desde 1975 e exerço essa função de responsável pela redação e pelo setor editorial desde 84. Eu diria que a maneira de se produzirem os editoriais é mais ou menos a mesma desde essa época, do final dos anos 70, começo dos anos 80.
Existe uma equipe de editorialistas, como em qualquer outro jornal, que se reúne diariamente, no começo da tarde, para discutir temas e debater enfoques. Essa pauta é necessariamente discutida todos os dias com o "publisher" do jornal, o responsável maior, que é o meu pai, Octavio Frias de Oliveira, e os editoriais são produzidos ao longo da tarde. Muitas vezes eles sofrem modificações em função de novidades que aparecem no noticiário.
Muito raramente esses textos têm um autor individual, porque normalmente são alterados, copidescados por mais de uma pessoa. Acaba sendo um trabalho em grande medida coletivo. O meu pai mantém o hábito de ler, alterar e copidescar ainda a versão final, que é levada a ele por volta de 18h30, 19 horas. Nosso primeiro fechamento, da Folha como um todo, ocorre atualmente às 20 horas, e o segundo às 23h15.
Não se alteram editoriais de uma edição para a outra; os editoriais que aparecem na edição nacional (a que fecha às 20 horas), são sempre os mesmos que são estampados depois, na edição São Paulo, que é a das 23h15. Às sextas-feiras existe um ritual, já há muitos anos na Folha, traduzido na forma de um almoço com a presença do meu pai e dos editores responsáveis pelas editorias cuja área de atuação está freqüentemente mais afeta aos temas abordados em editoriais.
Master em Jornalismo - Com certeza, destaque para economia e política...
Otavio Frias Filho - Às vezes também cotidiano e internacional. Esse almoço conta também com a presença da equipe de editorialistas. Nesse encontro, são discutidos com mais vagar os temas de dimensão um pouco maior do que a dimensão diária, ou temas que suscitam mais controvérsia. Existe esse fórum às sextas-feiras e muitas vezes internamente existe esse hábito de "ah, tal assunto é um bom tema para ser discutido na sexta-feira" ou "o jornal precisaria ter uma posição sobre isso" etc.
Naturalmente, a decisão final, a última palavra, cabe ao meu pai. É uma equipe de quatro editorialistas fixos, que trabalham só com isso, além de alguns consultores que são freqüentemente ouvidos, justamente a propósito de determinado editorial que recaia sobre a sua área de atuação, sobre a sua especialidade. Às vezes, até esses consultores podem encaminhar esboços que mais tarde serão retrabalhados, até se converterem em editoriais propriamente ditos.