Master em JornalismoMaster em Jornalismo

Instituto Internacional de Ciências Sociais

Universidade de Navarra

Área do Aluno

Nelson Sirotsky

Jornalismo com sotaque e fibra

Por Eugênio Araújo

Parte III

Nelson Sirotsky

Master em Jornalismo - E quanto às possibilidades da entrada de capital externo na mídia brasileira, a partir da nova legislação? Isso representa soluções financeiras para determinados grupos ou poderá comprometer a independência jornalística?

Nelson Sirotsky - A alteração do artigo 222 da Constituição Nacional estabelece regras bastante claras sobre a entrada de capital estrangeiro nas empresas de comunicação do país. E estas regras pressupõem a total independência editorial e de gestão das empresas, cuja propriedade deve permanecer com o lado brasileiro, assim como a responsabilidade editorial e de gestão das companhias. A participação do capital estrangeiro nas empresas de mídia deve ser entendido como uma alternativa financeira para aquelas que assim o desejarem. São mecanismos, limitados a 30% do capital, que podem possibilitar acesso ao capital, a recursos mais baratos.

Master em Jornalismo - Jornais populares de qualidade mexeram com o mercado brasileiro nos últimos dez anos, ajudando a expansão do mercado leitor. Alguns críticos acentuam que, para vencer nas bancas, muitos desses novos veículos acabam passando por cima do binômio missão-valores para conquistar um novo público – explorando as coberturas policiais ou a sexualidade. Vocês têm um case de sucesso na linha dos populares de qualidade. Como analisar as atitudes críticas em relação a esse novo tipo de jornal ?

Nelson Sirotsky - O que é sucesso no mundo e no Brasil são novos formatos de jornais que oferecem prestação de serviços, informação e lazer de forma diferenciada. E a principal característica desses jornais é a sua enorme identificação com o público a quem ele é dirigido. O case do Diário Gaúcho(DG) é a prova de que é possível sim fazer um veículo diferente, com muita prestação de serviço, com uma linguagem moderna, com informação adequada ao público para o qual ele é dirigido, sem recorrer a uma linguagem popularesca ou inadequada. Mas este é apenas o caso do DG. Há muitos outros casos no Brasil e no mundo que apontam que há espaço para crescer em várias direções. E à medida que o Brasil melhora a sua capacidade de renda e retoma o seu crescimento econômico, novos cidadãos passarão a ter condições de acessar os jornais. É nosso desafio como empreendedores desta área criar os produtos adequados para cada público.

Master em Jornalismo - Há alguma influência do jornalismo praticado no Cone Sul da América sobre o jornal Zero Hora e demais veículos do grupo? Ou o formato e linha editorial são opções gaúchas – simplesmente? Os tablóides uruguaios e argentinos tiveram algum peso no jeito de fazer jornal ao Sul do Brasil?

Nelson Sirotsky - O formato tablóide, surgido na América Latina há mais de 50 anos, é hoje uma tendência mundial. Indiscutivelmente, o sucesso deste formato na Argentina e no Paraguai chamou atenção de outras regiões e acabou influenciando fortemente o Rio Grande do Sul e todo o Cone Sul. Mas é preciso diferenciar os tablóides da nossa região, cujo nome identifica um formato de qualidade, dos tablóides sensacionalistas ingleses.

A Folha da Tarde, um jornal que já não existe mais, foi a primeira experiência vitoriosa neste formato no Rio Grande do Sul. Zero Hora, desde sua fundação há 40 anos, sempre foi tablóide e na medida em que cresceu e assumiu a liderança de mercado no Estado tornou-se uma referência quanto ao seu formato. Assim, pudemos observar no Estado, a partir do êxito de ZH, a migração dos demais jornais gaúchos do formato standard para o tablóide. O mesmo está acontecendo em Santa Catarina, a partir do Diário Catarinense. Inclusive, um de nossos jornais, o Jornal de Santa Catarina, também foi recentemente alterado do formato standard para o tablóide, com grande aceitação da comunidade local.

Master em Jornalismo - Até onde vai a lenda e a realidade diante de comentários sobre o “excesso de bairrismo dos gaúchos” – e dos periódicos feitos no Rio Grande do Sul?

Nelson Sirotsky - O Rio Grande do Sul é um Estado cuja história e a cultura estão repletas de batalhas, de tradições, de folclore e de orgulho pelas conquistas e pelo aprendizado. Temos – os gaúchos – forte ligação com estas raízes e a transmissão desta cultura de pai para filho pode ter passado para outras comunidades a idéia de um Estado bairrista. Já os jornais, apenas refletem e contemplam estes valores e anseios da sua comunidade, seja na política, nos esportes, nas artes, na cultura, na música e assim por diante. O jornal precisa estar identificado com o seu público, tem que retratar sua gente. Zero Hora, por meio de seus colunistas, de seus cadernos, dos espaços para o leitor, faz exatamente isso.

Master em Jornalismo - Algumas empresas jornalísticas, além de cumprir sua missão e defender seus valores, passaram a investir em programas voltados para o terceiro setor. O que isso significa: grupos de jornais, tv ou revistas estão preenchendo espaços que o próprio governo deixa em termos de demandas sociais? É uma política que traz saldos no marketing institucional? Qual é a visão de Zero Hora sobre este assunto?

Nelson Sirotsky - As soluções para os problemas de natureza social do Brasil não podem ser encaradas como de responsabilidade ou de governos, ou das empresas, ou das universidades, ou mesmo dos meios de comunicação. Temos que pensar nas soluções para estas dificuldades como uma responsabilidade da sociedade, como um compromisso coletivo. Por esta razão, desde a fundação da RBS, atuamos neste campo social de diferentes maneiras. Atualmente, com a Fundação Maurício Sirtosky potencializamos nossas ações, cujo principal objetivo é o de criar uma consciência mobilizadora em torno de um tema.

Felizmente, nos últimos anos, o terceiro setor vem crescendo no Brasil e, na minha visão, não há nenhuma perspectiva de marketing em torno desta realidade. O que existe é uma nova sociedade mais participativa, mas exigente e mais comprometida, da qual a mídia faz parte.

Master em Jornalismo - Num momento em que se discute a credibilidade dos grande veículos, um livro passou a ocupar as cabeceiras de editores norte-americanos e discutido entre estudiosos de mídia do Brasil. O título é “Elementos do Jornalismo”, de Bill Kovach e Tom Rosenstiel. O livro chega a ser didático, resgatando 10 pontos-chave para o exercício do bom jornalismo, tendo o “compromisso com a verdade” como ponto inicial. O que está acontecendo com os jornais, afinal? E a imprensa, como se dizia no século passado, ainda pode ser encarada como o “Quarto Poder”?

Nelson Sirotsky - Em primeiro lugar, não concordo com este rótulo de quarto poder. Entendo que o fato de a imprensa estar próxima das pessoas e de dar voz às comunidades, distribuindo informação, serviço e até entretenimento, de ter uma capacidade mobilizadora e um papel de vigilância, não dá poder à imprensa e sim uma enorme responsabilidade. A missão da imprensa é nobre. Somos instrumentos de construção da cidadania, de fortalecimento da democracia e de identificação das pessoas com o seu mundo. A imprensa também está submetida ao direito de escolha do público.

Quanto ao livro Elementos do Jornalismo, penso que ele reitera alguns princípios básicos do bom jornalismo e que permanecem muito presentes na atualidade e com os quais concordo plenamente. O principal deles, na minha visão, é o da independência tanto no âmbito empresarial quanto no profissional. O livro fala também no instinto de percepção das pessoas, da necessidade que temos da informação livre e verdadeira para nos sentirmos parte de um grupo, de uma comunidade. E fico satisfeito, pois acho que as empresas de comunicação no Brasil têm cumprido bem este papel.

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