Master em JornalismoMaster em Jornalismo

Instituto Internacional de Ciências Sociais

Universidade de Navarra

Área do Aluno

Nelson Sirotsky

Jornalismo com sotaque e fibra

Por Eugênio Araújo

Parte II

Nelson Sirotsky

Master em Jornalismo - Manter viva a liberdade de imprensa é o desafio cotidiano do jornalismo – praticado em veículos impressos, rádio, TV ou Internet. Após quatro décadas de vida, em que medida foram mantidos os valores defendidos pelo jornal Zero Hora?

Nelson Sirotsky - Zero Hora, desde a sua fundação, e sobretudo a partir do momento em que a família Sirotsky – representada por meu pai Maurício Sirotsky Sobrinho e pelo Jayme Sirotsky – assumiu o comando do jornal em 1971, é um veículo intransigente na defesa da liberdade de expressão e de imprensa. Historicamente, o jornal sempre esteve ao lado das grandes causas, do interesse da maioria, que são os nossos leitores. Seja editorialmente ou pela nossa participação na Associação Nacional de Jornais (ANJ), na Associação Mundial de Jornais (WAN), na Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), entre outras entidades.

Master em Jornalismo - O que o jornal e os outros veículos da rede defendem hoje? O espelho desses valores é a democracia americana, a democracia ateniense? Como, especificamente, o jornal Zero Hora se define: um jornal conservador ou liberal?

Nelson Sirotsky - Zero Hora é um jornal profundamente identificado com a comunidade onde atua, focado no interesse de seus leitores e que defende princípios básicos da liberdade de expressão, da liberdade de mercado e da livre iniciativa. Temos na RBS, e portanto em Zero Hora e também nos demais jornais da rede, um guia de ética formalmente estabelecido onde estão registrados nossos valores e diretrizes éticas. No dia-a-dia, preservamos e estimulamos diversos canais de comunicação com o leitor, seja por telefone, e-mail, cartas, conselhos do leitor, atendimento ao leitor ou até pessoalmente, pelos quais recebemos sugestões e críticas diariamente.

Master em Jornalismo - Como a RBS montou sua rede de comunicação? Traçou uma estratégia ao longo do tempo ou foi aproveitando as oportunidades de expansão?

Nelson Sirotsky - A estratégia da RBS foi sendo construída ao longo do tempo, com uma visão de foco local. Tanto para o rádio quanto para a televisão e para o jornal sempre procuramos desenvolver produtos e ações que nos aproximassem do público e dos mercados onde atuamos. Deste objetivo, e dos esforços que fizemos ao longo dos anos, surgiu nossa estratégia de comunicação integrada e multimídia. Ou seja, independentemente da plataforma de distribuição que seja escolhida pelo leitor ou pelo cliente – jornal, rádio, televisão ou internet –, trabalhamos para oferecer a melhor solução de comunicação, seja ela na área da informação, do entretenimento ou do serviço.

Master em Jornalismo - Com relação à manutenção dos valores, uma empresa familiar é uma ameaça ou uma oportunidade? E em relação à gestão administrativa, grupos familiares oferecem vantagens ou precisam vencer desafios?

Nelson Sirotsky - Uma empresa que tem propriedade definida acumula ao longo dos anos uma cultura própria, que se expressa por meio de seus valores e de seus princípios. É o caso da RBS, que é uma empresa familiar cujos proprietários estão próximos do negócio. Isto é uma garantia de que essa cultura adquirida ao longo de décadas será preservada e transmitida de geração para geração. À medida que os proprietários se afastam da operação e profissionalizam a gestão da empresa, aumentam os riscos da perda dessa cultura familiar.

O que temos feito na RBS é cuidar da preservação de nossos valores originais, sem que isso represente um processo de inibição para a profissionalização da gestão da empresa, também necessário ao desenvolvimento da organização. Equilibrar estas duas questões é possível a partir da presença e atuação harmônica dos profissionais de mercado e dos sócios da organização.

Master em Jornalismo - Existem pré-requisitos para que parentes dos sócios-proprietários das empresas do grupo trabalhem no jornal, rádio ou tv? Quais são e como foram definidos?

Nelson Sirotsky - A família Sirotsky já está vinculada à RBS por quatro gerações. Eu sou da segunda geração. Os membros da terceira já são todos adultos e alguns já têm filhos. Essa multiplicação exige da empresa, para sua própria preservação, o estabelecimento de regras e de critérios claros tanto para admitir como para demitir membros da família na empresa. Há alguns anos, o Conselho de Acionistas estabeleceu essas diretrizes. Sucintamente, são cinco regras básicas: idade mínima de 27 anos; necessidade de uma formação superior em nível técnico ou executivo; especialização no exterior; experiência profissional fora da RBS; e sobretudo a existência de vaga e de convite por parte da empresa.

Master em Jornalismo - Há um questionamento, no Brasil e no Exterior, que redes de comunicação regionais exerçam um grau de monopólio da informação. Como o Grupo RBS vê esta questão, dos pontos de vista ético e legal?

Nelson Sirotsky - Todas as operações da RBS estão, e sempre estiveram, absolutamente de acordo com as leis pertinentes ao setor de comunicação do país e com a legislação vigente. Ocorre que ainda se confunde muito o significado da palavra monopólio. A verdade é que não existe no Brasil no setor de comunicação nenhum ambiente, em nenhum mercado, em que exista uma só operação monopolística. Monopólio só existiria se, em alguma região brasileira, apenas uma empresa operasse. Chega a ser ridículo se falar em monopólio num mercado como o de Porto Alegre, por exemplo, onde há 30 emissoras de rádio, cinco jornais diários, seis emissoras de televisão aberta, sem contar os canais por assinatura.

Nelson Sirotsky - Se confunde muito monopólio com liderança. Liderança é uma conquista da competência e uma conseqüência de uma relação profissional e de liberdade, tanto de parte da empresa, na sua capacidade e no seu direito de expressão, quanto do público, no seu direito de escolha. Também já tenho observado confusões em torno do conceito de operação integrada de rádios, jornais, televisão e internet, que nada mais é do que uma solução multimídia, totalmente focada nos interesses e nas necessidades do público.

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