Master em Jornalismo Uma revolução no ensino de jornalismo no Brasil

São Paulo, 02/03/2010 às 22h26

Luciano Martins Costa: Relatos sobre a corrupção

Masteriano de 1998 comenta noticiário sobre a situação do Brasil na imprensa americana

Observatório da Imprensa

A Folha de S.Paulo publicou na edição da terça-feira (2/3) informações sobre um relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos que vê a corrupção no Brasil como preocupante. O estudo, elaborado anualmente, se refere ao ano passado e tem como pontos centrais o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro. A corrupção entra na análise como uma das fontes de dinheiro ilegal que trafega pelo sistema financeiro internacional.

O documento cita o caso do presidente do Senado, José Sarney, que esteve no centro de acusações graves, entre as quais a de possuir conta bancária ilegal no exterior. Refere-se também ao escândalo que envolve o governador licenciado do Distrito Federal, José Roberto Arruda, observando que os processos por crimes de corrupção no Brasil continuam lentos, com poucas condenações na área administrativa registradas em 2009.

O estudo anual do Departamento de Estado, elaborado a pedido do Congresso dos Estados Unidos, nunca teve grande repercussão porque é composto de análises de agentes americanos de informações baseadas no noticiário da imprensa local.

Como o noticiário sobre escândalos não segue metodologias confiáveis de compilação de dados, misturando provas com denúncias e meras declarações, o documento acaba se transformando em nada mais do que um clipping, ou seja, um apanhado de notícias de jornal.

 

Tratamento desigual

Esse é um exemplo de como a imprensa produz notícias que se transformam em fatos, que novamente viram notícia.

O fenômeno era comum no tempo da inflação elevada e dos grandes ganhos de investidores no overnight: especulações plantadas em jornais ganhavam ares de realidade e acabavam produzindo efeitos no mercado, abrindo oportunidade de ganhos financeiros para os autores dos boatos.

A imprensa enche páginas com notícias sobre corrupção, comprovadas ou não, e depois publica a informação de que o governo dos Estados Unidos está preocupado com a corrupção no Brasil – preocupação essa alimentada pelas notícias da própria imprensa brasileira.

Um exemplo de material que pode acabar alimentando o relatório do ano que vem: a deputada distrital Eurides Brito, apanhada na turma do mensalão de Brasília guardando um maço de dinheiro na bolsa, afirma agora que o dinheiro vinha do ex-governador Joaquim Roriz, como pagamento de suas despesas pré-eleitorais.

A declaração tem claramente o objetivo de desviar para o ex-governador as acusações que pesam sobre José Roberto Arruda, mas não serve nem para isentar Arruda nem para reforçar a tese de que o esquema de corrupção foi montado ainda no governo de Joaquim Roriz.

Há indícios de que ali não há inocentes, mas quando todo mundo é suspeito, fica mais difícil encontrar o culpado.

 

Tática diversionista

A questão da corrupção é muito mais complexa do que faz crer o noticiário. O problema começa no sistema partidário, que não representa os perfis ideológicos e de interesses da população e favorece a criação de grupos de lobbies travestidos de partidos políticos.

Ao fazer muito barulho sem esclarecer como funcionam os esquemas que comprometem parlamentares e governantes ainda antes das eleições, a imprensa produz apenas relatórios como o do Departamento de Estado americano, e não ajuda a documentar o problema.

O noticiário dá ao cidadão comum a impressão de que nada funciona no país sem o pagamento de propina, o que não é necessariamente uma verdade. E de que também na corrupção existem castas sociais diferenciadas, o que é bem mais verossímil.

Luciano Martins Costa (II Master em Jornalismo - 1998) é editor do Observatório da Imprensa no Rádio) e colunista do jornal Brasil Econômico

 

 


Cursos avançados para jornalistas

Master_gestao Master_jornalismo_digital Master_economico
Patrocínio e responsabilidade social