Master em Jornalismo Uma revolução no ensino de jornalismo no Brasil

28/06/2010

A ousadia da santidade

Carlos Alberto Di Franco

Paul Johnson é um dos grandes historiadores e intelectuais da atualidade. Articulista da revista
britânica The Spectator, seus textos são provocadores. Dono de uma cultura invejável e sinceridade
afiada, Johnson não sucumbe aos clichês vazios. Em seu livro Os Heróis, Paul Johnson destaca a
importância das lideranças morais.

“Os heróis”, diz Johnson, “inspiram, motivam. (…) Eles nos ajudam a distinguir o certo do
errado e a compreender os méritos morais da nossa causa.” Os comentários de Johnson trazem
à minha memória um texto que exerceu forte influência no rumo da minha vida: Amar o Mundo
Apaixonadamente
, homilia proferida por São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei e
primeiro grão-chanceler da Universidade de Navarra, durante missa celebrada no campus daquela
prestigiosa instituição. São Josemaria – cuja festa a Igreja celebrou no dia 26 de junho –, foi
um mestre na busca da santidade no trabalho profissional e nas atividades cotidianas. A Editora
Quadrante, São Paulo, acaba de lançar uma primorosa reedição da homilia.

Propunha, naquela homilia vibrante e carregada de ousadia, “materializar a vida espiritual”. Queria
afastar os cristãos da tentação “de levar uma espécie de vida dupla: a vida interior, a vida de relação
com Deus, por um lado; e, por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social,
cheia de pequenas realidades terrenas”. O cristianismo encarnado nas realidades cotidianas:
eis o miolo da proposta de São Josemaria. “Não pode haver uma vida dupla, não podemos
ser esquizofrênicos, se queremos ser cristãos”, sublinha. E, numa advertência contra todas as
manifestações de espiritualismo mal entendido e de beatice, afirma de modo taxativo: “Ou sabemos
encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca.”

“A vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia.” A vida, o
trabalho, as relações sociais, tudo o que compõe o mosaico da nossa vida é matéria para ser
santificada. São Josemaria, um santo alegre e otimista, olha a vida com uma lente extremamente
positiva: “O mundo não é ruim, porque saiu das mãos de Deus”. O autêntico cristão não
vive de costas para o mundo, nem encara o seu tempo com inquietação ou nostalgias do
passado. “Qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres
do mundo coisa oposta à vontade de Deus”. A luta do nosso tempo, com suas luzes e suas sombras,
é sempre o desafio mais fascinante.

O pensamento de São Josemaria, apoiado numa visão transcendente da vida, e, ao mesmo tempo,
com os pés bem fincados na realidade material e cotidiana, consegue, de fato, captar plenamente a
contextura humana e ética dos acontecimentos. Ele tem, no fundo, a terceira dimensão: a religiosa
e ética – e só com esse foco é possível entender plenamente o mundo em que vivemos. Na verdade,
o esgotamento do materialismo histórico e a crescente frustração do consumismo hedonista
prenunciam uma mudança comportamental: o mundo está sedento de liberdade, mas nostálgico de
certezas.

Articular verdade e liberdade é, talvez, um dos mais interessantes recados de São Josemaria.
Insurge-se, vigorosamente, contra o clericalismo que se oculta na mentalidade de discurso único,
na injusta dogmatização das coisas que são legitimamente opináveis. São Josemaria afirma
que um cristão não deve “pensar ou dizer que desce do templo ao mundo para representar
a Igreja”, nem que “as suas soluções são as soluções católicas para aqueles problemas”. Por
defender esse pluralismo, sofreu incompreensões, inclusive de algumas pessoas da Cúria Romana,
que entendiam por exemplo que na Itália os católicos tinham o dever de votar no Partido da
Democracia Cristã.

São Josemaria não deixa de enfatizar o valor insubstituível da liberdade – particularmente a
liberdade de expressão e de pensamento – contra todas as formas de intolerância e sectarismo.
Para ele, o pluralismo nas questões humanas não é algo que deve ser tolerado, mas, sim, amado e
procurado.

A sua defesa da liberdade, no entanto, não fica num conceito descomprometido, mas mergulha
na raiz existencial da liberdade: o amor – amor a Deus, amor aos homens, amor à verdade. Sua
defesa da fé e da verdade não é, de fato, “antinada”, mas a favor de uma concepção da vida que não
pretende dominar, mas, ao contrário, é uma proposta que convida a uma livre resposta de cada ser
humano.

Seus ensinamentos se contrapõem a uma tendência cultural do nosso tempo: o empenho em
confrontar verdade e liberdade. Frequentemente, as convicções, mesmo quando livremente
assumidas, recebem o estigma de fundamentalismo. Tenta-se impor, em nome da liberdade,
o que poderíamos chamar de dogma do relativismo. Essa relativização da verdade não se
manifesta apenas no campo das ideias. De fato, tem inúmeras consequências no conteúdo ético da
informação.

A tese, por exemplo, de que é necessário ouvir os dois lados de uma mesma questão é
irrepreensível; não há como discuti-la sem destruir os próprios fundamentos do jornalismo.
Só que passou a ser usada para evitar a busca da verdade. A tendência a reduzir o jornalismo a
um trabalho de simples transmissão de diversas versões oculta a falácia de que a captação da
verdade dos fatos é uma quimera. E não é. O bom jornalismo é a busca apaixonada da verdade. O
jornalismo de qualidade, verdadeiro e livre, está profundamente comprometido com a dignidade
do ser humano e com uma perspectiva de serviço à sociedade.

A figura de São Josemaria Escrivá, o seu amor à verdade e a sua paixão pela liberdade, tiveram
grande influência em minha vida pessoal e profissional. Amar o Mundo Apaixonadamente não
é apenas um texto moderno e forte. Sua mensagem, devidamente refletida, serve de poderosa
alavanca para o exercício da nossa atividade profissional.

Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br), professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com). E-mail: difranco@iics.org.br
 



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