Master em Jornalismo Uma revolução no ensino de jornalismo no Brasil

14/06/2009

Liberdade de imprensa constrangida

Carlos Alberto Di Franco

A Petrobrás, uma empresa de referência, está sob fogo cruzado. Noticiário de supostos desvios de recursos em contratos superfaturados e de generosa transferência de recursos às ONGs ligadas ao petismo, renderam chamadas de capa e deram manchetes de jornal. Nada de mais. Trata-se de fato comum em qualquer democracia. E ninguém rasga as vestes. Compete à imprensa investigar eventuais irregularidades e iluminá-las com os holofotes da informação. E cabe à empresa, em respeito aos seus acionistas e à sociedade, prestar os esclarecimentos oportunos. Sempre foi assim. E sempre será. O relacionamente entre mídia e poder implica num certo grau de tensão. Felizmente. O próprio presidente da República, embora manifeste algum desconforto pontual com o trabalho da imprensa, jamais questionou a importância do jornalismo e de seu papel investigativo.

Por isso, surpreende, e muito, recente inovação da Petrobrás na sua interface com os meios de comunicação. A estatal, rompendo o clássico protocolo de relacionamento com a mídia, inaugurou um blog para apresentar “fatos e dados recentes da Petrobrás e o posicionamento da empresa sobre questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)”. No ar desde o ultimo dia 2, o blog vem sendo alimentado diariamente com reportagens jornalísticas sobre a companhia e as respostas enviadas pela empresa aos veículos de comunicação. A iniciativa provocou polêmica após divulgação, antes da publicação da reportagem, das perguntas feitas pelos repórteres. Rompeu, portanto, o sigilo que precisa existir no relacionamento entre a imprensa e a fonte prestadora das informações.

A empresa, numa revisão sensata, acaba de recuar. A decisão foi anunciada na última quarta-feira no seu próprio blog, em nota que afirma que as respostas só serão publicadas “por volta da 0h00 do dia da publicação da matéria”. A mudança, no entanto, não alterou curiosos silêncios informativos. Uma semana após questionamento feito pelo jornal O Estado de S.Paulo a respeito do valor do contrato com a consultoria de comunicação Companhia de Notícias (CDN) –convocada em esquema emergencial para apoiar a estatal durante a CPI-, a Petrobrás ainda não divulgou a informação. A empresa chegou a informar no blog que a resposta já teria sido publicada, mas o texto não estava disponível até o momento do encerramento deste comentário.

Para cuidar da sua imagem institucional, a estatal montou uma gigantesca equipe de mais de 1.150 profissionais de comunicação, uma redação que supera em muito cada uma daquelas dos maiores jornais do país. Certamente você, caro leitor, deve estar buscando as razões de tal montagem midiática. Não é bom sinal. Independentemente da idoneidade dos profissionais da Petrobrás, que não questiono, não é razoável tamanho aparato para quem quer apenas transmitir informações verdadeiras e qualificadas.

O comportamento da Petrobrás atropelou o trabalho da imprensa. Não me lembro de um relacionamento com instituição pública que tenha terminado dessa maneira. Não é bom para a instituição, nem para a mídia, nem para os leitores, que devem ter a informação editada pela imprensa com independência e liberdade. Foi, sem dúvida, uma tentativa de inibir o trabalho dos meios de comunicação.

Repórteres sérios, editores competentes e formadores de opinião éticos não são manobráveis. Não são bibelôs de empresas ou de governos. Estão, não obstante suas limitações pessoais, comprometidos com a informação, com a verdade factual e com seus leitores. Na lógica das estratégias autoritárias, jornalistas precisam ser domesticados.

A mídia não é antinada e não está a serviço de partidos ou movimentos ideológicos. Nosso compromisso é com a verdade e com os leitores. A transparência informativa é elemento essencial para a renovação do Brasil. A Petrobrás, um símbolo do Brasil desenvolvido, teve o mérito de reavaliar sua precipitada iniciativa. Não seria bom para o Brasil. Não seria bom para a Petrobrás. Não seria bom para a imprensa. Não seria bom para a liberdade.

Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br), professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com). E-mail: difranco@iics.org.br



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