Master em JornalismoMaster em Jornalismo

Instituto Internacional de Ciências Sociais

Universidade de Navarra

Área do Aluno

São Paulo - SP - 10/03/2005 - 12h14

Os novos bárbaros

Rafael Ruiz

O que mais choca nos dias que correm não é propriamente a violência juvenil, pois, afinal de contas, desde que o homem é homem, violência sempre houve. O que choca, ao ponto de estar exigindo mais e mais explicações, na tentativa de diminuir um pouco a perplexidade que já tomou conta de toda a sociedade, é a sua gratuidade, a sua absoluta falta de sentido.

As velhas explicações dos anos 70 não convencem mais ninguém. É difícil acreditar que as diferenças econômicas, os níveis de pobreza ou quaisquer outras explicações economicistas possam ser a base dessa violência que, é um fato, não faz questão de nenhum tipo de diferença de classes. Como Fancis Fukuyama aponta na sua análise sobre a crise da sociedade ocidental, publicada em “The Atlantic Monthly”, com o acurado nome de “A Grande Ruptura”: “...ainda que haja muita evidência de uma grande correlação entre desigualdade e crime, é muito difícil que possa se constituir em explicação plausível para os cada vez mais altos índices de criminalidade em ocidente”.

Há uma profunda raiz cultural para a qual, não apenas Fukuyama, mas também outros pensadores como Allan Bloom ou Alisdair MacIntyre têm apontado insistentemente: as bases racionais da modernidade foram socavadas pelo pensamento de Friedich Nietszche. Nada mais contemporâneo e atual, como lembra Fukuyama, do que a sua afirmação de o homem ser um animal criador de valores ou de que a complexa linguagem do bem e do mal, falada pelas diferentes culturas, não passa de um produto da própria vontade humana, de maneira alguma apoiado na verdade ou na razão. Quebrara-se assim, definitivamente, o nexo de união entre vontade e razão.

Dessa forma, a sociedade passou a identificar gosto e vontade, sem conseguir captar mais as profundas diferenças existentes entre ambos. O gosto é imediato. Diz-se que gostamos de algo quando esse algo nos agrada; quando desperta nossos sentidos. A vontade, porém, é mediata; está projetada no tempo, mediatizada pela razão: queremos ou, pelo menos, somos capazes de querer – esse é o ato próprio da vontade – algo que vemos e entendemos como conveniente, mesmo que seja distante, mesmo que não nos agrade, mesmo que não desperte nosso interesse, ou até, nos provoque uma certa repugnância.

É por isso que somos capazes de submeter-nos a tratamentos médicos, que nos desagradam, para recuperar a saúde; somos capazes de suportar prejuízos pessoais em troca de benefícios da sociedade; somos capazes de passar por cima do gosto para que a nossa vontade alcance seu objetivo; porém, o que verificamos é que cada vez mais a sociedade não consegue captar essa sutil, mais importante, diferença; cada vez mais o gosto impõe a sua força, e a força impõe suas regras.

Não podemos questionar-nos sobre a violência da juventude sem deixar de levar em conta os elevados índices de uma hiperinflação do gosto. Não é de agora a constatação de um grande número de pessoas que, podendo assumir convenientemente as suas obrigações sociais, laborais, econômicas preferem – muitas vezes com o consentimento dos seus pais- prolongar a idade da adolescência.

Toda uma geração educada no princípio básico dos anos 70 de “faça o que você quiser; aquilo com o que você se sentir melhor”. Uma juventude criada numa sociedade consumista, que, de certa forma, tem tudo o que quer e não faz nada do que não goste. Radica aí o problema. Toda uma geração que tem sido iludida com relação à vida real. Toda um geração de novos doces bárbaros, nascidos à luz libertária de 68, para quem “querer é poder”. Uma geração que precisa aprender que a vida não nos dá tudo; que nem tudo o que se passa na realidade é agradável; que nem tudo o que queremos ou gostamos é conveniente para a sociedade.

Conviver com os outros; ser amáveis; dar tempo para que os outros nos expliquem o que querem ou precisam; saber esperar para ser atendidos... Tudo isso carece de sentido numa sociedade onde a ditadura do gosto predomina. Uma sociedade atomizada de gostos e interesses pessoais, acaba por tornar-se necessariamente violenta; transforma-se num estado de barbárie, onde manda a lei do mais forte e onde a regra de conduta é o egoísmo mais cruel.

Nada de mais gratuito do que o gosto. Aliás, como muito bem diz a sabedoria popular, é por isso que sobre gostos não se discute. Carece de sentido explicar as razões do próprio gosto. Nada de mais gratuito do que a violência do próprio gosto. Por que não? Não há razões –num mundo cultural bêbado de relativismo niesztcheano - que me convençam de que não posso ou não devo – que moral seria essa, afinal? - fazer o que gosto e tenho vontade.

Estamos, afirmava Ortega e Gasset, na era do “filhinho de papai”, que pensa que pode fazer tudo o que lhe der na veneta. Mas, precisamente por isso, estamos também no umbral da possibilidade de construir uma nova sociedade, baseada em princípios mais sólidos e duradouros do que os atuais. Princípios, que deverão quebrar as barreiras protetoras do egoísmo e da indiferença pessoais -no final da sua análise, Fukuyama fala nos estreitos limites de nacionalismos de feição balcânica ou sérvia, por exemplo- para estabelecer uma firme e arraigada crença na universalidade da dignidade humana. Então, sim, estaremos recompondo essa profunda ruptura que tem abalado o mundo contemporâneo.

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